Uma Batalha em Pianissimo

13, mar, 2025 | Artigos | 0 Comentários

Este texto foi publicado como prefácio ao livro “Drummond e a Poesia do Pensamento em Claro Enigma”, de Ranieri Ribas, obra lançada pela ed. Danúbio em março de 2025. 

 

Por Jessé de Almeida Primo 

 

É sabido que Virgílio compôs a Eneida para homenagear o Imperador Augusto e exaltar o Império Romano; e a “Écloga IV”, acolhida por intérpretes cristãos como profecia do nascimento de Cristo, é vista por outros como saudação ao nascimento de um notável romano. Convenhamos que, no primeiro caso, o imperativo simbólico é de tal ordem que as motivações mais comezinhas de origem são obscurecidas, por mais que saibamos delas; e, no segundo, a intensidade dos versos é tamanha que mais calha usá-los para referir a Cristo que a um membro da nobreza (As cabrinhas por si trarão aos lares/ tetas cheias de leite e dos leões/ rebanho algum terá qualquer receio,/ enquanto o berço, por vontade própria,/ de branda flor a ti dará perfume./ Serpente morrerá e morrerá/ toda a pérfida planta venenosa…), de maneira que Virgílio dá a impressão de ter errado a dedicatória por antecipação. 

São Paulo, por sua vez, extrapolou para fim apologético o sentido verdadeiro do altar que os gregos dedicavam ao “Deus Desconhecido”, ao dizer para eles: “O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” Procedeu de forma semelhante a Igreja ao transformar a celebração ao sol da tradição romana, que ocorria em 25 de dezembro, na celebração do nascimento de Cristo, e em ambos os casos, São Paulo, ao preencher o altar outrora vazio com o Espírito Santo (a leitura que os intérpretes fizeram do poema de Virgílio é um ato análogo ao de São Paulo, preenchendo o poema com o significado cristão) e a Tradição da Igreja dando ao sol um significado — diria até, o verdadeiro,  — derrubaram a barreira imposta pela idolatria e abriram o caminho para a “única coisa necessária”.

Leiamos agora o que disse o escritor Jorge Luis Borges, a respeito da famosa obra de Cervantes:

 

Let us take the title of one of the most famous books in the world, Historia del ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. The word hidalgo has today a peculiar dignity all its own, yet when Cervantes wrote it, the world hidalgo meant “a country gentleman”. As for the name “Quixote”, it was meant to be a rather ridiculous word, like the names of many of the character in Dickens: Pickwick, Swiveller, Chuzzlewit, Twist, Squares, Quilp, and so on. And the you have “de la Mancha”, wich now sounds noble in Castilian to us, but when Cervantes wrote it down, he intend it to sound perhaps (I ask the apology of any resident of that city who may be here) as if he had written “Don Quixote of Kansas City”. You see how those words have changed, how they have been ennobled. You see a strange fact: that because the old soldier Miguel de Cervantes poked mild fun at La Mancha, now “La Mancha” is the one of the everlasting words of literature.

 

Essas observações de Borges contrastam com as interpretações românticas da narrativa de Cervantes, que veem na loucura de Dom Quixote um desafio à mesquinhez da sociedade, incapaz de reconhecer a nobreza de seu espírito. Isso fica ainda mais claro na interpretação que René Girard, antropólogo e crítico literário, faz dessa mesma personagem em Mentira romântica e verdade romanesca (1961), seu livro de estreia, quando a apresenta como “vítima exemplar do desejo triangular”: o desejo que Dom Quixote tem de ser um cavaleiro não é espontâneo, pelo contrário, é sugerido por Amadis de Gaula, que é o modelo. E para quem o vê como um idealista em choque com o realismo grosseiro de Sancho tem de encarar o fato de que – num processo a que o filósofo francês chama de “indiferenciação”, na qual um se torna indistinguível do outro —, Sancho é o seu espelho, na medida em que seu desejo de governar uma ilha é, por seu turno, sugerido por Dom Quixote. 

Dos sonetos de Shakespeare, podemos dizer com acerto que são uma meditação sobre a mortalidade. Originalmente, porém, são “uma categoria especial de versos de circunstância”, conforme observação do poeta Jorge Wanderley, que os traduziu. Wanderley vai ainda mais longe: “havia em Shakespeare e nos sonetos toda a complexa receita de mundanismo, apego ao momento, localismo, intenção de agradar.” Essa é uma interpretação de texto. Leiamos o que diz Wanderley das circunstâncias: “são duty-sonnets, escritos mais ou menos como tarefa de rotina que o servidor desempenhasse para agradar ao grão-senhor e que representassem expressão de apreço, amizade (valor que tinha a palavra love no contexto) e plena dedicação, devotado serviço”. Continuemos com Jorge Wanderley, numa citação mais extensa:

 

É preciso entender, portanto, que os sonetos estão amarrados a um contexto de circunstâncias as mais das vezes totalmente identificáveis – e que o reconhecimento delas é em muitos casos, como no grupo dos Will sonnets, a chave sem a qual não é possível entender o sentido do poema. Com a chave, tal sentido é, na quase totalidade dos textos, perfeita e claramente reconhecível. Sem ela – a história da literatura inglesa o sabe bem – entra-se num mar infindável de interpretações, caprichos criativos, erudição desperdiçada e também delirantes sandices ou a tolice pura e simples. Lembre-se  também que, divididos em dois grandes grupos (1 a 126, ao amigo, 127 em diante à Dark Lady) os sonetos admitem inúmeros subgrupos, como os da indução do amigo ao casamento, ou a que faça filhos, ou os do poeta rival, ou os escritos in a absence,etc, etc, etc.

 

Vemos de forma muito clara o perigo de nos afastar das circunstâncias quando nos lançamos de vez para um universalismo exagerado, a todo custo, que nos desvia do significado real que se apresenta no texto. É notável, a julgar por essas palavras, a visão inegavelmente utilitarista que se poderia ter da grande arte naqueles tempos doirados. A partir do romantismo, principalmente com as veleidades também românticas do século XIX, tornou-se comum falar da função desinteressada da arte, que não serve para nada, que é inútil e que a sua qualidade estava justamente nisso, quando, ainda na Renascença, acreditava-se, talvez com razão, que as gentes se casavam e faziam filhos porque alguns poemas induziam-nas a fazê-lo e que se poderiam cortejar mulheres usando-se do mesmo recurso. Que nosso espírito romântico não nos faça, porém, desesperar ou deplorar essas origens mesquinhas, mesmo que o grande poeta e tradutor nos leve, nas linhas finais, a aterrissar outra vez no chão das circunstâncias:

 

É claro que muitos dos poemas resultantes dessa série, escrita entre 1592 e 1593-94 ultrapassam sua condição de origem – o circunstancial – e se destacam do contexto para luzir num céu exclusivo, onde esplendem insuperáveis consumando esta que é a instância maior do literário, a transcendência, a universalidade alcançada a pleno, ainda que tenha partido da realidade ou da fantasia mais comezinhas. Mas é, por outro lado, indispensável conhecer as circunstâncias, não só porque darão o entendimento verdadeiro do texto, como também porque explicam muito da concretude existente no universo dos sonetos.

 

A quem censura a crítica que recorre à biografia ou a que considera as circunstâncias mais imediatamente relacionadas à obra apreciada, não leva em conta um fenômeno muito recorrente: a grande literatura, assim como as manifestações mais altas do espírito humano, surgiu de alguma reação a algo muito específico, seja elevado ou ordinário, isto é, surgiu de uma inquietação metafísica; uma paixão não correspondida, o ressentimento com o sucesso alheio, um episódio político, rivalidades de toda sorte, enfim, fenômenos por vezes escamoteados pela crítica purista — ou relativizados — em nome de uma universalidade que se opõe às restrições inerentes a fatos particulares, como se esses fatos impedissem o leitor de perceber o quanto de universal essas idiossincrasias podem ter. Vale ressaltar, por exemplo, o quanto o ressentimento de Dostoiévski contra Turguêniev, rico e bem recebido nos salões europeus, assim como contra outras figuras igualmente bem sucedidas, em razão das diversas humilhações a que se submeteu, foram elementos muito importantes para o desenvolvimento de sua obra, elementos que uma vez transportados para o mundo da ficção muito têm a dizer sobre nós mesmos, e quanto mais se tenta defender a grande obra de Dostoiévski de sua biografia, mais essa grita aos ouvidos de quem pretende separar uma coisa da outra. Dentro desse espírito, e numa estimulante reconstituição de uma era, surge Drummond e a poesia do pensamento em Claro enigma, do poeta, pesquisador e ensaísta Ranieri Ribas: 

 

(…) Claro Enigma não é uma obra livresca, cerebral, friamente arquitetada, tampouco marcada por temas esteticistas, descarnados, eternos ou próprios à poesia pura. Contrariamente, trata-se de um livro repleto de poemas circunstanciais, mundanos e autobiográficos; em geral, os temas escolhidos pelo poeta nos revelam uma poesia reativa às questões impostas pelo contexto pessoal do autor; cada poema é, de algum modo, uma reação vital às provocações diretas ou indiretas advindas, ora da luta política, ora da luta literária, ora da leitura de outros poetas, filósofos e prosadores que instigaram Drummond a escrever. 

 

Alguns artigos que compõem esse livro sobre o poema “A máquina do mundo” causaram, porém, esta reação:

 

[…] vale registrar que leituras mais recentes têm identificado outras fontes de interlocuções no grande poema drummondiano. É o caso do ensaio de Almeida (2021), que explora o suposto diálogo intertextual  de “A máquina do mundo” com o poema de W. H. Auden e com a filosofia do absurdo de Albert Camus, além de ser supostamente uma resposta poética e cética de Drummond à metafísica cristã de Jorge de Lima em O livro dos sonetos (1949). Trata-se de contribuição relevante para os debates em torno da complexa trama intertextual com que é tecido esse poema excepcional. Entretanto, é necessário certa cautela na sobrevalorização dessas descobertas, em detrimento do que já foi explicitado, reconhecido e devidamente demonstrado – ou seja, a presença decisiva, nos versos, de Dante e Camões, que Ranieri considera mero despistamento astuciosamente armado pelo poeta, por razões que parecem, entretanto, discutíveis […] Dicionário Drummond, IMS Editora, 2023, p.44, Consentino, Bruno; Eucanaã Ferraz (Orgs.).

 

Essa reação é típica de quem, para proteger as leituras consagradas, reduz as novas contribuições ao universo do “suposto”, absorvendo dessarte a linguagem da imprensa contemporânea que tem medo de afirmar até mesmo o que é verdadeiro, caminhando sempre na ponta dos pés. É curioso o quanto essas admoestações partem de uma corrente crítica que se apresenta como realista, científica (acadêmica, como o queiram) ao mesmo tempo em que para defender seus autores de eleição (não seria defender suas próprias interpretações e as de sua eleição?) incorre ela mesma na armadilha da mitificação, e de tal maneira que relacionar um grande poema a uma origem ordinária ou circunstancial é já visto como ofensa a esse objeto de admiração, quando houve, em verdade, uma motivação e um empreendimento investigativos, uma reconstituição dos “cenários biográficos para que melhor compreendêssemos as origens genéticas d[os] poemas”. Eis o momento em que o espírito por essas pessoas tido como científico confunde-se com o espírito exageradamente pio de um papa-missa provinciano, que para salvaguardar a grandeza imaginária das origens do poema dispõe-se até mesmo a apelar para a grandeza do sobrenatural em que não acreditam, o qual, todavia, tem sua reputação garantida pelo fato de que os grandes artistas, como Dante Alighieri e Camões, deram-lhe expressão poética, substituindo assim (com o objetivo de afetar aparência laico-acadêmico), o cristianismo de facto pelo cristianismo cultural, aquele que se encanta com os grandes tesouros da Igreja Católica com o mesmo ar abobado do caipira que admira um elevador visto pela primeira vez.

Numa observação arguta, Girard ilustra, com Cervantes, esse idealismo: “O século XIX, que não entendeu nada de Cervantes, não cessava de elogiar a ‘originalidade’ de seu herói. O leitor romântico, por um maravilhoso contrassenso que não passa, no fundo, de uma verdade superior, se identifica com Dom Quixote, o imitador por excelência, o qual ele torna o indivíduo modelo”. Isso posto, não seria Drummond esse “indivíduo modelo”, bastando substituir, para melhor entendimento, a expressão “imitador por excelência” por “limitador por excelência”, aquele que, paradoxalmente, deu a essa limitação uma expressão de altíssimo nível, a qual sequer foi alcançada por seus antípodas Alphonsus de Guimaraens, ou mesmo, Jorge de Lima, com quem rivaliza? É Bruno Tolentino, que o tem como mestre, quem afirma: 

 

a poesia de Drummond é tão grande quanto é filosoficamente estreito o universo de concepções que abriu. O homem drummondiano não tem sobre a terra, por objeto de vida, nada mais alto que a estetização do quotidiano e a busca das raízes, do telúrico, do “nacional”, pontilhado este último por arroubos de idealismo político-social. É neste sentido que a intelectualidade de nossos dias passou a mover-se dentro da moldura drummondiana do mundo (p.04).

 

Custa admitir, por mais verdadeiro que seja, que tamanha realização da língua e da linguagem, como vemos com “A máquina do mundo”, esteja articulada com essa restrição, com essa estreiteza filosófica e espiritual. A dificuldade em conceber isso, inclusive de minha parte, não seria uma das evidências desse “mero despistamento astuciosamente armado pelo poeta” de que Ranieri Ribas fala? Afinal, quando a linguagem é usada de tal modo magistral, parece impossível que sua matéria permaneça no nível rasteiro; é como se tal matéria se transformasse em outra coisa, adquirisse outra natureza. 

A estreiteza do universo filosófico drummondiano tornou-se objeto de disputa numa polêmica deflagrada em janeiro de 1995 entre o filósofo Olavo de Carvalho e o poeta Bruno Tolentino. Esta controvérsia revelou-nos algo de certa forma curioso: enquanto Tolentino viu na “Máquina do mundo” uma declaração de apostasia, de negação dos dons de Deus, pela qual, de resto, a poesia drummondiana pagou um preço muito caro depois do Lição de coisas, Olavo de Carvalho indicou um fenômeno de outra natureza, não uma apostasia, mas sim a negação dos “mistérios menores”, do aspecto maquinal da criação, que mais interessaria a um Fausto, a um bruxo, a um alquimista, e que, enfim, não seria a “ciência de Cristo” etc. Essa visão, aliás, não é distante (na aparência, diga-se) da forma como o mesmo Camões trata da “máquina do mundo” no décimo canto dos Lusíadas, se considerarmos o que José Guilherme Merquior, apoiado em Silviano Santiago, escreveu em Verso universo em Drummond: “a máquina do mundo camoniana é um objeto mecânico, calcado pelo humanista Camões sobre a física do Renascimento […]”, afirmação que está mais próxima ao que podemos encontrar aqui, em Drummond e a poesia do pensamento em Claro enigma : “As imagens de Jorge[de Lima, no Livro de sonetos] são celestiais; as de Drummond são elementais, mecânicas, maquinais e científicas.” Mais adiante, Ribas reforça-a com a expressão “epifania maquinal antropocêntrica.” As imagens de Camões, porém, ao contrário do que parece sugerir Silviano Santiago, citado por Merquior, são tão celestiais quanto as de Jorge de Lima, uma vez que esse “objeto mecânico” é apenas um símile que aponta para algo maior: trata-se de uma máquina “etérea e elemental que fabricada/ assi foi do Saber, alto e profundo,/ que é sem princípio e meta limitada”. E por mais que o poeta português compartilhe do espírito “esclarecido” do Renascimento, não deixa, por isso, de apontar um limite: “Quem cerca em derredor este rotundo/ Globo e sua superfície tão limitada,/ é Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,/ que a tanto o engenho humano não se estende” (Os Lusíadas X-80). Em suma, no poema camoniano, Vasco da Gama é convidado a contemplar a criação de Deus; no drummondiano, carregado de desencanto, a voz lírica é convidada a contemplar a “criação” do homem. Voltando aqui à disputa Carvalho-Tolentino, o filósofo, dobrando a aposta, chega a dizer que Drummond, ao negar essas elementaridades, abriu seu caminho para o Céu, porque tomou uma decisão sábia, escapando assim à pulsão luciferina que expulsou Adão e Eva do Paraíso. Nisso, Olavo de Carvalho está mais de acordo com o ateu José Guilherme Merquior, que julgou que Drummond revelou sabedoria e sobriedade ao recusar as revelações da “máquina”. Claro que se trata de um acordo parcial, e parcial porque acidental — se Olavo de Carvalho estiver certo —, uma vez que Merquior teria se enganado, junto com Bruno Tolentino, ao acreditar ter havido um ato de apostasia (pensando bem, desde quando é apostasia recusar ouvir o que diz uma revelação “mecanofânica”, advinda de um fenômeno antropocêntrico?), distinguindo-se um do outro apenas na celebração da rebeldia esclarecida por parte daquele, que ignorava que talvez Drummond não quisera ceder ao “vós sereis como Deuses”, e no deplorar essa mesma rebeldia da parte deste, que via a máquina como representação de um oráculo, e teriam assim, quase que no mesmo processo de indiferenciação girardiano, caído na mesma armadilha idealizante em que caíram gerações inteiras de críticos uspianos e quejandos.

Se falei a alguns parágrafos de tradução, é porque se trata de uma atividade literária cujo conseguimento depende de investigações acerca da época em que o poema original foi escrito, das circunstâncias que envolviam sua escrita e da biografia do autor. Ao lançar luzes sobre pormenores privados, o tradutor esclarece não apenas os poemas, mas também a forma mais adequada de traduzi-los, e isso não costuma causar espanto ou constrangimento nos meios acadêmicos (cujo perfil é exatamente o mesmo da Geração de 45, que se divertem em criticar), apelando, sem saber, ao purismo idealizante (próprio da geração de ambas as gerações), e à assertividade, a mesma assertividade que não recomendam aos alunos e orientandos, porque não veem com bons olhos qualquer empreendimento crítico que apresente alguma interpretação alternativa àquelas apresentadas pelos críticos canônicos de sua preferência.

Que é afinal essa “presença decisiva, nos versos, de Dante e Camões”, que Ranieri considera mero “despistamento astuciosamente armado pelo poeta”? Em 1965, Ivan Junqueira escreveu algo sobre Anulação e outros reparos, de Bruno Tolentino, muito revelador desse “despistamento”, que, ao contrário do que sugerem os timoratos organizadores do Dicionário Drummond, Ranieri menos denuncia que elogia. Leiamos o que Junqueira escreve: “o autor de Anulação e outros reparos evita sempre o contacto direto com o nervo da criação literária deste ou daquele poeta, trabalhando apenas sobre os arquétipos dessa criação, a partir, portanto, de formas estéticas impessoalizadas (o itálico é meu)”. Não creio, porém, que essa afirmação de Junqueira, por arguta que seja, traduza com exatidão a natureza da lírica tolentiniana, que não tem caráter tático-preventivo com relação à poesia dos autores que admira, e com os quais dialoga de espírito aberto.  Por outro lado, ilustra muito bem — se não a lírica drummondiana — os poemas do Claro enigma. No caso de Drummond, o que podemos notar – e como diversas passagens do livro Ranieri Ribas o demonstram – é que, se por um lado existe, sim, uma relação da “A máquina do mundo” com Dante e Camões, por outro, o bardo de Itabira usa–lhes a forma (a terça rima dantesca) e o motivo camoniano (“a máquina do mundo” do canto X dos Lusíadas), além de extrair ao poeta português a dicção, para dialogar não com eles ou tratar das questões que estes levantaram, e sim para reagir ao espírito teofânico presente nos sonetos de Jorge de Lima, constantes no seu Livro de sonetos, publicado em 1949, usando como argumentos algumas reflexões, incluindo imagens, presentes na obra O mito de Sísifo, de Albert Camus e também W. H. Auden, de quem “redesenhou o cenário  vesperal e maquinal audeniano” presente no poema “As I Walked One Evening”, além do recurso ao “calepino” – um recurso, como o leitor deste livro perceberá, constante –, de que lhe serviu o ensaio “Poesia e pesadelo”, em que analisa “What is Modern in Modern Poetry”, de Stephen Spender; algo de resto bem ao estilo do “Homem do subsolo”, do romance de Dostoiévski, daquele tipo de guerra que se estabelece com um rival de eleição que lhe é superior ou a quem acredita superior, o qual, por ironia, não toma conhecimento de haver alguém na multidão a lutar contra ele e por isso prossegue sua vida como se nada disso estivesse acontecendo: “Ao que tudo indica,” diz-nos Ribas no capítulo 1,  “a decisão do poeta de expor antecipadamente seu mais audacioso poema [“A máquina do mundo”] numa revista católica tinha por propósito responder ao ainda inédito Livro de sonetos, de Jorge de Lima”. Ou seja, Drummond não declara guerra, todavia quer deixar algumas pistas de que está travando uma. E como o faz? Após publicar esse poema num jornal secular, laico, o Correio da manhã, resolve publicar “uma versão ligeiramente modificada” numa revista católica, revista essa dirigida justamente por Alceu Amoroso Lima, amigo e companheiro de viagem de Jorge de Lima. Este trecho a seguir, do mesmo capítulo, torna a intriga ainda mais interessante: “O caso das publicações prévias de ‘A máquina do mundo’ tinha motivações distintas das motivações anteriores”, como já foi exposto a poucas linhas, responder ao livro “ainda inédito” de Jorge de Lima. E é bem possível que essas “motivações distintas das anteriores” indiquem que a ligeira modificação que Drummond fez no poema foi menos por conta de uma exigência poética que pela necessidade de deixar claro a Jorge de Lima que o poema era uma cutucada contra ele, a modificação era mero pretexto para prolongar essa guerra silenciosa, essa “rivalidade íntima, unilateral e inconfessa”, nas palavras do próprio Ribas. 

A investigação que Ranieri Ribas faz dessa guerra silenciosa, Drummond-Lima, tem um desdobramento riquíssimo e sem dúvida resultou num acréscimo tão valoroso quanto necessário à fortuna crítica do grande poeta alagoano, cujo volume intitulado Livro de sonetos mereceu neste volume um estudo tão rigoroso quanto o que foi despendido na leitura de claro enigma. É fascinante a forma como o ensaísta descreve os antecedentes desse livro, todo o processo por que passou até sua publicação, as expectativas que criou nos círculos literários, as grandes questões de que brotaram os poemas, que são “a releitura autobiográfica e pessoal do livro de Gênesis” e o como ele conclui que Drummond teria lido esses poemas ainda em rascunho, meses antes da sua publicação, tanto pelas oportunidades que se lhe apresentaram, pelas circunstâncias, bem como pela relação entre as imagens que revestem os sonetos e como estas migram para “A máquina do mundo”, como se reelaboram nesse poema, tudo isso numa leitura de poema a poema, de verso a verso. É igualmente fascinante a análise que o ensaísta faz dessa rivalidade, como já disse, subsolesca; de um lado, um poeta de gênio, muito incomodado, que duela solitariamente e concebe uma grande obra; e do outro, outro poeta de gênio, tão somente ocupado com seu ofício que elabora uma obra que gera a obra-prima rival, um jogo de espelho que reproduz exatamente o “desejo triangular”, no termo de Girard: da mesma forma que Dom Quixote emulava, e sem rivalidade, Amadis de Gaula, Sancho Pança, ainda que resmungasse contra as maluquices de seu amo, emulava-o no plano mais baixo; neste livro, o que vemos é Jorge de Lima emulando Deus, sem contudo disputar com Ele, na recriação do livro do Gênesis e Drummond, por sua vez, numa emulação conflitiva, construindo um espelho negativo dessa mesma criação.

Essa guerra não iria se limitar a Jorge de Lima, há também os poetas da Geração de 45, mas que diferentemente da tão silenciosa e subsolesca guerra entre ele e o vate alagoano, era de fato uma guerra declarada em artigos e entrevistas. Porém, ao prolongar essa guerra em expressão lírica, no poema “Tarde de maio”, fê-lo tão disfarçadamente que o poema foi tomado como uma expressão trágica por muitas gerações de críticos e amadores da poesia em geral (incluindo este que vos escreve); não se imaginava que, ao contrário, era uma expressão cômica dessa guerra: “É provável que Drummond tenha feito uso retórico do tom de súplica a um ente divino para, com esse gesto cênico, arremedar comicamente o estilo poético próprio dos poetas puristas”. O autor apresenta ao longo do ensaio provas documentais que sustentam essa interpretação, as quais apenas enuncio contando que o leitor vai ele mesmo verificar com o autor essas provas. O que é intrigante nessa história é por que motivo algo outrora tão público se torna secreto? “Drummond escondia seus motivos e intertextos com muita astúcia, de tal modo que os enigmas dos poemas (como ‘A máquina do mundo’, ‘Contemplação no banco’ e ‘Tarde de maio’) jamais foram ofertados aos leitores como um ‘dom gratuito’”, é o que lemos na introdução. O mesmo mistério de uma guerra que começa declarada e termina criptografada na lírica diz respeito à relação entre Drummond e o Partido Comunista, como se expressa enigmaticamente em “Dissolução”, cujo título “é uma metáfora matrimonial que descreve a dissolução dos laços que uniam o poeta à fé utópica propagada pelo Partido”. 

Nem tudo é guerra em Drummond. Reativo que seja a pessoas, a colegas de ofício, a grupos literários, a partidos políticos, há também o entusiasmo pelo assunto do momento. A respeito de “Contemplação no banco”: “Lendo diversas crônicas e depoimentos do poeta publicados nos jornais dessa época (entre os anos de 1948 e 1949), deparei-me com uma entrevista concedida ao jornalista Otto Lara Resende e publicada em O jornal(RJ), no início de dezembro de 1948, portanto, um ano antes da publicação de ‘Contemplação no banco’, na revista Província de São Pedro”.  Nesse trecho notamos imediatamente o esforço investigativo e, diria, arqueológico empreendido na realização dos textos que compõem este livro, que é a busca por fontes jornalísticas da época, principalmente do que o mesmo Drummond publicou em forma de artigos, crônicas, ensaios e recensões no mesmo período em que sua obra estava sendo gestada, mais precisamente, em que os poemas depois reunidos no volume intitulado Claro enigma estavam sendo gestados, estabelecendo a “correlação entre as crônicas e os poemas”, ou por outra, os já mencionados textos em prosa eram, em verdade, “rascunhos dos conteúdos poéticos posteriormente desenvolvidos.” “Contemplação no banco”, em princípio, é um poema cuja dicção evidencia a virada classicista, como já foi observado por Merquior a respeito de “Tarde de maio” e também, mais tarde, por Vagner Camilo, entre outros, e cuja matéria ainda carrega as mesmas preocupações do poeta comunista, mas que antes de ser comunista é poeta, isto é, o anseio socialista pelo surgimento do novo homem por meio da educação adequada. Acontece que Drummond já não mira na formação do caráter de diversas gerações a fim de que ao longo de muito tempo surja esse homem, e sim revigora sua fé nessa utopia fundamentado numa nova descoberta: 

 

Nessa entrevista, Drummond se diz preocupado com as consequências do progresso da Ciência para a ‘formação do homem do futuro’ geneticamente produzido. Drummond se referia então, sem dar maiores explicações, ao ‘desentendimento’ entre duas ‘academias de Ciência’ ocorrido ‘ainda agora’. Ao reconstituir esse universo de questões científicas, descobri que Drummond aludia ali ao chamado ‘caso Lysenko’, uma controvérsia genética que pôs em confronto a Academia de Ciências de Moscou, de um lado, e as academias científicas europeias e americanas, de outro (Capítulo 9, introdução).

 

Na segunda parte deste poema, lemos: “Nalgum lugar faz-se esse homem…/ Contra a vontade dos pais ele nasce,/ contra a astúcia da medicina ele cresce,/ e ama, contra a amargura da política.” Não fossem as estrofes seguintes, com destaque aos versos “se a vida nova/ se nutre de outros sais, que não sabemos?”, poderíamos tomar essa abertura como alusão ao homem novo que se constrói pelo esforço educativo nas instituições soviéticas ou, até mesmo, numa leitura reacionária (na possibilidade de o trecho tornar-se icônico), ao surgimento de novas gerações em desafio ao planejamento familiar ou às intervenções mais agressivas, como o aborto, e que conseguisse manter relações autênticas a despeito das ditaduras ideológicas, “e ama, contra a amargura da política”. Ambas as primeiras expectativas de leitura, seja a comunista, a do homem que se faz pelo esforço educativo, seja a reacionária, a da humanidade que se firma a despeito das diversas tentativas de controle, são igualmente idealizantes quando confrontadas com o que Ribas traz à luz do que foi publicado na época: “o que ele contempla é o novo homem, o homem do futuro (…) que seria fabricado pela ‘Biologia proletária’ e dialético-materialista de Trofim D. Lysenko (1898-1976). Trata-se, pois, do novo homem, prefigurado pelas descobertas da genética stalinista oficial”, que “romperia radicalmente com as leis genéticas da hereditariedade e com as teses da origem adâmica da humanidade judaico-cristã”. Porém, essa interferência pela manipulação genética seria algo como a última etapa de algo, aí sim, idealizante, que é o homem novo a partir da “imagem pública de Maiakovski”, que é “o perfeito e incorpóreo modelo do homem socialista”, imagem essa “desenhada no retrato biográfico e poético feito por Lila Guerrero na Antología de Maiacovski. Su Vida y Su Obra (1943). Assim sendo, o que o poeta mineiro contempla naquele assento público é a imagem do homem socialista arquetípico, o artífice de uma nova ordem social fraterna, altruísta e solidária que ainda estaria por se consumar científica, moral e poeticamente”.

Parece-me haver nesse entusiasmo pela genética uma relação com a “Máquina do mundo”, tratando-se, porém, de uma relação negativa, que não compartilha, afinal, da visão “desencantada” do mundo da técnica. Num dos poemas vê sua fé na técnica alimentada pelo fato de que “Nalgum lugar faz-se esse homem”; noutro, essas conquistas técnicas não lhe acendem o espírito. A relação entre os poemas podem até funcionar na manifestação de opostos, contudo “Contemplação no banco” parece prolongar a rivalidade inconfessa com Jorge de Lima, não apenas se lhe opondo à teofania, à visão “criacionista e etérea”, como também reduzindo  “a narrativa da criação do universo por obra de Deus a um inventário de visões técnicas, naturais e maquinais”, a “uma visão mecanofânica das obras do homem” (enquanto Jorge de Lima espera em Cristo, Drummond espera em Academias de Ciências de Moscou), procurando, assim, encurralar o autor de Invenção de Orfeu tanto pelo desencanto (“A máquina do mundo”) como pela fé renovada na técnica (“Contemplação no banco”).

Ler este livro sobre Claro enigma é como assistir aos bastidores de um filme de nossa predileção e, de sobra, podemos apreciar estudos igualmente exegéticos da obra prima de Jorge de Lima, que não aparece apenas incidentalmente, mas ocupando parte significativa de dois capítulos; o mesmo se pode dizer da nova concepção de poesia moderna por Stephen Spender, um dos expoentes dos poetas da geração de 1930, os “thirties”, da qual faz parte o poeta W. H. Auden, que se tornou o ícone dessa geração a ponto de esta ser identificada também pelo seu nome, “Auden’s group”, e o como a poesia inglesa, seja na figura de Spender seja na figura de Auden, foi determinante para que Drummond saísse do impasse em que se encontrava e entrevisse um novo caminho, para além da poesia que tratasse de temas sociais, restabelecendo “o uso inteligente das formas poéticas clássicas na representação do mundo maquinal”; há também uma visão panorâmica de Maiakovski e o impacto que teve no Brasil a tradução que Lila Guerrero fez de sua obra para o espanhol e a introdução a esta; as disputas científico-ideológicas acerca da manipulação genética entre a academia soviética e as do Ocidente, as divertidíssimas guerras culturais entre Drummond e os jovens vetustos da Geração de 45, e até mesmo a antecipação poética ao estado de espírito do país quando da derrota da Seleção Brasileira de Futebol na Copa de 1950, com o poema “Fraga e sombra”; uma leitura do Mito de Sísifo, de Albert Camus, enfim, como se este livro fosse algo como o sucedâneo da “Máquina do mundo” que, quando menos esperávamos, ou quando já não mesmo esperávamos, nos revelou o espírito de uma época riquíssima num único instante, “tudo se apresentou nesse relance.” 

Como, porém, tudo isso passou em branco para gerações de críticos? O autor disse com outras palavras que Drummond escondia o mapa da mina, e assim a crítica “Drummondiana se viu obrigada a esmiuçar um sem número de enigmas herméticos, sutis e enganosos.” Ranieri Ribas é um cientista social que é tão bem equipado para a sua área de formação bem como tem conhecimento espantoso da tradição literária, e é poeta, o que talvez tenha contribuído para aguçar a curiosidade para elementos que passariam despercebidos por outros críticos, e nisso ele está bem irmanado com René Girard, um antropólogo cuja grande descoberta na área da antropologia se deu a partir de leituras dos romances do século XIX a resultar em que sua publicação de estreia seja também uma instigante obra de crítica literária, que é o Mentira romântica, realidade romanesca. Por outro lado, José Guilherme Merquior, com formação semelhante, se por um lado, introduz as obras e movimentos literários com panoramas instigantes da época em que surgiram, não chegou a fazer o mesmo tipo de escavação que Ranieri Ribas propôs fazer; contentou-se, e o fez com rara competência, com entender o espírito da época; Antonio Candido, também de formação sociológica, ao menos indicou a possível relação dos poemas com as crônicas, diz-nos Ribas: “A correlação entre as crônicas e os poemas de Drummond foi enfatizada originalmente por Antonio Candido”. Outros grandes críticos contemporâneos de Drummond, certo por conta das recensões que eram publicadas semanalmente, não puderam fazer pesquisa da mesma natureza, restando-lhes fazer as interpretações de textos descoladas das motivações imediatas, mas que de um modo ou de outro não deixam de ser contribuições de valor inestimável.

A migração da crítica que se apresentava ao grande público em jornais e revistas de grande circulação para o intramuros acadêmico, com o consequente desaparecimento da crítica impressionista, deveria ao menos trazer a compensação da curiosidade investigativa. Essa curiosidade, quando muito, se estende ou ao panorama histórico da época de cada autor ou ao trabalho de pesquisa nos originais manuscritos e das variantes publicadas em diversos veículos para legitimar essa pesquisa ou para fins de fixação de textos. Talvez, uma das mais felizes exceções seja o trabalho empreendido por Loedegário A. de Azevedo Filho na reconstituição da lírica camoniana, que flagrou diversas alterações em nome do bom gosto, do belo, no texto dessas líricas, espécie de higienização estética que começou a invadir o imaginário a partir da Renascença e determinou o gosto dos camonistas contemporâneos.

Alguns dos ensaios presentes em Drummond e a poesia do pensamento em Claro Enigma foram publicados em revistas acadêmicas, sem contar todavia com programas de apoio à pesquisa, ou algo semelhante. Tudo começou pela curiosidade despertada por um livro, que o lançou a pesquisas exaustivas em diversos documentos da época, não apenas produzidos por Drummond mas por outros autores e veículos, e não necessariamente produzidos em função do que Drummond estava realizando, e entretanto formaram o universo intelectual do itabirano, seja pela absorção seja pela rejeição. Não exijo, com isso, que todas as obras de crítica e interpretação literárias devam compartilhar dessa mesma natureza de investigação, até porque muitas vezes só queremos ler o poema, entendê-lo e senti-lo, perceber que recursos o poeta usou para atingir determinados efeitos, coisas que, enfim, prescindem desse tipo esforço investigativo. Essa etapa mais modesta, porém de grande importância, deveria por outro lado ser um estímulo ao tipo de investigação que Ranieri Ribas empreendeu sem poupar esforços e pela qual esclareceu os enigmas e hermetismos que seriam resolvidos há mais tempo se outros investigadores literários tivessem tido a mesma disposição, contudo é de estranhar que as academias brasileiras, tão protegidas das exigências do mercado e de outras demandas do mundo moderno, com recursos para empreender esse tipo de investigação, não tenham criado um ambiente acolhedor a quem tem vontade e disposição para buscar respostas.

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Matheus Araújo

Jessé de Almeida Primo

Ensaísta brasileiro com formação em Letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Em 2006, publicou o livro A Natureza da Poesia: Quem Vai Ficar com as Musas pela Editora Tulle. Mais recentemente, em 2022, coautorou O que Restou de 22 – Uma Semana na Contramão da História, publicado pela Editora Sétimo Selo.

Além de suas publicações, Jessé mantém um podcast intitulado “Jessé de Almeida Primo – Leitura de Poesia”, no qual compartilha leituras e reflexões sobre poemas.