Quando o melhor retrato vem do outro

6, dez, 2022 | Artigos | 0 Comentários

Por Simón Aliendres León 

A tragédia venezuelana sempre será um exemplo de como as civilizações colapsam e das consequências negativas do comunismo. O retrato por antonomásia de como uma sociedade perde um Estado que defende seus interesses e deste modo se enfraquece, como o perdedor ferido de uma briga selvagem. E assim por diante… A queda da Venezuela será uma metáfora do suicídio civilizacional e dos grandes projetos nacionais que nunca se consolidaram e nasceram mortos.
 
Diogo Fontana, sem ser venezuelano, soube descrever perfeitamente, em seu segundo romance “Se Houvesse um Homem Justo na Cidade” (2022), os grandes traços da tragédia venezuelana. Escreveu muito provavelmente o melhor documento literário sobre a crise do país vizinho. Pode assemelhar um paradoxo que um estrangeiro escreva melhor sobre um país do que os autores desta própria nação, mas isso faz total sentido e possui várias explicações.
 
A queda da Venezuela teve várias manifestações, por assim dizer, e várias repercussões em todas as esferas do país, algumas foram mais causas do que consequências, outras têm uma relação complexa com o fenômeno central. Um exemplo da queda está na própria literatura venezuelana. Mais acentuada do que a crise econômica, foi a destruição da cultura, um processo que já estava em curso décadas antes de Chávez chegar ao poder, e que, com a ascensão do atual regime, o quadro se agravou, o câncer entrou em metástase.
 
Não há um cânone de obras sobre a ditadura, nem uma lista séria dos livros mais vendidos. A partir de Maduro, a indústria editorial praticamente desapareceu. Há anos, a circulação de livros na Venezuela é irregular. Tenho uma lista das obras mais representativas da queda da Venezuela. Muitos desses livros eu encontrei em PDF, na internet; alguns poucos eu consegui comprar, porque a sua circulação era muito limitada, e a divulgação bastante problemática. Só obtém visibilidade quem tem contatos midiáticos ou é patrocinado pelo regime.
 
A incômoda verdade, pois, o segredo por muitos apenas sussurrado, é que as letras venezuelanas não satisfazem as expectativas da crítica local, e muito menos da maioria dos distintos tipos de leitores. Como certa vez disse a autora hispano-venezuelana María Pilar Puig, a literatura venezuelana não tem sido capaz de lidar com a tragédia. A revolução destruiu a tal ponto a alma do país que é difícil vislumbrar o renascimento de narrativas que expliquem o nosso drama. Nos últimos anos, têm sido publicadas diversas obras em tom de denúncia, crítica ou inclusive de tese, obras cuja motivação inicial é retratar a crise venezuelana. Nenhuma delas me convenceu. Talvez até haja uma boa obra quase inédita e de edição artesanal, absolutamente desconhecida, mas isso é incerto.
 
Não seria justo, nem conveniente, fazer comparações explícitas entre as obras venezuelanas e o romance de Diogo Fontana. Vou somente destacar a relevância do livro do escritor brasileiro frente às obras dos meus compatriotas. Tudo o que foi publicado por venezuelanos têm, é certo, um valor histórico incalculável. Vale como documento, são registros do que era falado nas ruas da Venezuela nesses últimos anos; mas nada disso tem grande valor como literatura, nada disso tem uma qualidade estética aceitável. Em outras palavras, mesmo em face de uma queda dramática, um drama universal do qual seria possível extrair inúmeros significados, ainda não há, e talvez não venha a haver, um “Arquipélago Gulag” ou um “Diário de Anne Frank” da Venezuela.
 
Antes de mais nada, “Se Houvesse um Homem Justo na Cidade” é um relato de conversão no qual a religião joga um papel interessante sem comprometer a narrativa. Isso bate de frente com a obra dos autores destacados da literatura venezuelana, a maioria ateus. Neles, encontramos inclusive sacrilégios, e muitas vezes eles atiram na Igreja a culpa do fracasso da Venezuela como nação. Quase todos esses escritores provêm de um mesmo e único circuito cultural formado em torno de instituições como a Universidade Central da Venezuela, a Universidade Católica Andrés Bello, os Diários El Nacional e El Impulso, o Prodavinci e similares. Desses lugares saem inclusive os editores independentes que supostamente querem fazer uma ruptura. Em resumo, a literatura venezuelana, além de sofrer pela crise financeira e pelo veneno ideológico, também é fechada e gremial, e fortemente “Caracas-cêntrica”, tanto nas histórias como na circulação dos livros.
 
Vindo de fora desse círculo, e sendo escrito por um estrangeiro, o livro de Diogo Fontana está livre dos clichês, referências e estereótipos da cultura de massa venezuelana, o que pode ajudar a obra a envelhecer bem. O autor brasileiro não prioriza o filosofar sobre tópicos chatos e superficiais da televisão ou da cultura local, lugar muito comum na literatura do meu país. Pelo contrário, Fontana se concentra na história, no relato do trágico protagonista diante da adversidade; e vai além: aborda temas mais transcendentais.
 
Uma quantidade grande e indeterminada de romances venezuelanos recorre muitas vezes aos estereótipos, e até mesmo estereótipos saídos das novelas de televisão. Há um uso abundante de chavões totalmente desconexos da realidade. Muitos autores seguem sendo de esquerda e se negam a assumir o fracasso do socialismo. Pior: acusam o regime de Maduro de direitismo.
 
Há também importante diferença estética entre “Se Houvesse um Homem Justo na Cidade” e a produção venezuelana. O romance de Fontana possui uma prosa com influência dos séculos XIX e XX, e é perceptível que o texto é bastante trabalhado. Os escritores venezuelanos, muitos deles oriundos do jornalismo, arrastam os maus hábitos da profissão na hora de escrever. Alguns livros apresentam um estilo mais condizente com as postagens de um blog ou um texto de Facebook, talvez de uma crônica de jornal, do que com uma obra literária e artística. Outra praga é a mania dos autores de posar de rupturistas pós-modernos. Tentam escrever “pensando fora da caixinha”, e erram profundamente.
 
Não é a primeira vez que a Venezuela é abordada melhor a partir de fora do que por um olhar interno. Supostamente, Joseph Conrad se inspirou no país para escrever Nostromo. A ilha onde naufragou Robinson Crusoe ficava na Venezuela também, e há dois personagens venezuelanos simbólicos no romance On The Road, de Jack Kerouac. Nesses três casos a relação estabelecida com o país é superficial e circunstancial, mas é mais bem feita, objetiva e autêntica do que as abordagens dos autores nativos. Por exemplo: segundo alguns historiadores, a Costaguana do Nostromo é um fiel reflexo dos conflitos políticos e militares da Venezuela do século XIX, embora só haja certeza de que Joseph Conrad visitou o país uma vez. Percebe-se que nação imaginária que ele desenhou, tida como uma síntese do subcontinente, tem referências à Venezuela, mas não é uma relação exclusiva. Por isso há também quem identifique em Nostromo a Colômbia e o Panamá. No que diz respeito a On The Road, aparecem referências no livro a um escritor venezuelano amigo da turma dos rebeldes de Kerouac. A referência mais chamativa, contudo, e que pode ser tida até como profética em muitos aspectos, é a da prostituta venezuelana que Kerouac e Neal Cassady encontram quando visitam um bordel na fronteira entre América e México. Kerouac descreveu a moça como muito bonita, com traços índios e europeus, disse que parecia bem-nascida, mas caída em desgraça. Isso me lembra um ditado que sempre se usa em meu país: “a Venezuela é a moça bonita que poderia ser modelo, mas virou mulher de traficante”.
 
Há anos venho pesquisando a história venezuelana. Posso afirmar que nas universidades americanas há maior acervo disponível sobre a Venezuela que nas bibliotecas e universidades de Caracas. Para se ter uma idéia da situação, encontrei aqui, na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, onde moro, um exemplar de um romance que está praticamente perdido na Venezuela: Young man of Caracas, do americano-venezuelano Thomas Ybarra Russell. A obra é um documento histórico valioso porque narra a juventude do autor no final do século XIX na capital do país. O mesmo fenômeno de esquecimento aconteceu com a maioria dos autores novecentistas da Venezuela. Jamais alguém encontrará em um sebo ou em uma biblioteca de lá algum exemplar de muitas das obras mais importantes da nossa cultura. Na maior parte das vezes é preciso recorrer às faculdades de outros países para encontrar versões digitalizadas desses livros perdidos.
 
Diogo Fontana, por meio de seu trágico protagonista, dá voz não somente a mais uma vítima do regime comunista. O personagem José Maria Ceballos-Espaillat é a imagem de um país que decaiu de muitas formas. Ele é de alguma forma descendente das classes altas venezuelanas do século XIX; por seu sobrenome é possível até mesmo vinculá-lo ao intelectual Aristides Rojas Espaillat, importante pensador. Outro personagem simbólico da situação do país é o avô, Isidoro, um homem culto e extemporâneo, alguém que pelas características pode ser visto como uma espécie de último mantuano.
 
Ceballos-Espaillat às vezes me lembra de Alberto Soria, de Ídolos Rotos, romance escrito por Manuel Diaz Rodriguez, também me faz pensar em Reinaldo Solar, de O Último Solar, clássico de Rómulo Gallegos. Os três são homens privilegiados e brilhantes, mas que, por distintos fatores externos e internos, terminam do lado perdedor. Nasceram e foram educados para se destacar, queriam conquistar o mundo, mas a própria terra lhes foi adversa.
 
Como sobrevivente da destruição da Venezuela, posso dizer sem medo: Se Houvesse um Homem Justo na Cidade está à altura do tema que aborda em suas páginas.

 

 
 

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Detalhes do autor

Alexandre Soares Silva

Simón Aliendres León

Nasceu em Maracay, Venezuela, no ano de 1992. Trabalhou duro como blogueiro, redator publicitário, tradutor, professor de espanhol e empreendedor.

Formado em Ciências Contábeis em 2015, está radicado no Brasil desde 2017, por motivos políticos. Mora em Curitiba, cidade onde começou carreira no Direito, e de onde vem escrevendo sobre a Venezuela.