O mergulho final (conto)

27, maio, 2022 | Artigos | 0 Comentários

Por Diogo Fontana

 

Ao descer o morro que separa Bombas de Bombinhas, e fazer a curva rumo à rua principal, um pouco após a pousada dos Schürmann e as lojinhas coloridas, existe uma estreita servidão de terra que termina na praia. Neste local ermo e encantado, vive o argentino mais tranquilo de todo o litoral catarinense. Ali, as ondas estouram devagar e os rochedos escondem sambaquis imemoriais. Ali, durante a pesca da tainha, os peixes fulguram ao sol, e suas pilhas lembram despojos de prata sobre a areia. Há tempos, Sebastián Caboto singrou por essas águas, antes de aportar seu galeão na enseada de Zimbros, e foi neste preciso ponto da costa brasileira que alguns portugueses, um dia, foram repelidos à flecha pelos carijós.

Lá se vão vinte anos desde que o solitário habitante deste cantinho de praia estava sentado à mesa do seu apartamento em Palermo, na Capital Federal. Era uma manhã fria de março de 2002, e o advogado portenho Valério Ceratti, divorciado, sem filhos, 37 anos, fazia o inventário do seu patrimônio. Ele contabilizou os seus pertences e tentava elucidar quanto ainda lhe restava desimpedido após o mais recente confisco governamental. Computou tudo numa caderneta rota, e, com a ajuda de uma calculadora eletrônica, precisamente às oito e quarenta chegou a uma cifra final. Grifou o número duas vezes e enfatizou com três pontos de exclamação. Então, quedou um instante em silêncio, mordeu a ponta do lápis, mirou filosoficamente a janela, e decidiu concretizar um sonho que habitava a sua cabeça desde pelo menos os dezoito anos. Poucas horas depois, após rápida passagem pelo escritório de um cambista do mercado negro, Valério preparou duas malas de roupa, encheu uma mochila de dólares, e já seguia, cuspindo fumaça com seu Renault a diesel na autoestrada em direção ao Brasil.   

Este homem de meia-idade experimentou ao longo de toda a sua vida o constante e desolador declínio da sua pátria. No decorrer de quatro décadas, testemunhou a degradação econômica, o aviltamento moral, e a decomposição estética de um povo outrora soberbo, agora desesperançado. Valério viu sua nação tornar-se culturalmente irrelevante, cair sob o domínio dos maus, e até mesmo sofrer uma derrota militar diante do moribundo império britânico. Somente dois fugazes momentos de alegria cívica, as copas de 78 e 86, alentaram o seu coração, embora ambos tenham sido envenenados por alguns fiascos: primeiro, a denúncia de suborno contra os jogadores peruanos; segundo, a malandragem do craque problemático que burlou a arbitragem com um gol de mão. Vitórias desonrosas, enfim.

Por isso, enquanto dirigia para o norte, através dos pampas do Uruguai, naquele horizonte sem fim onde não parece residir ninguém além das vacas e ovelhas, e ainda ressentido com os acontecimentos políticos da década anterior, a loucura monetária que culminou na bancarrota inapelável do país, Valério argumentava consigo mesmo, justificava a decisão: “a Argentina acabou, não se levanta mais”; “a vida é curta, foda-se, voy vivir en la playa”.

Instalado a princípio em Florianópolis, encontrou seu refúgio derradeiro na Costa Verde, ao final da ruazinha em declive, onde ergueu o seu chalé pré-fabricado e plantou limas da pérsia no quintal. Tem vivido sossegado há vinte anos neste lugar e por nada nesse mundo pensará em abandoná-lo. Sustenta-se com pouco, trabalha como instrutor de mergulho, e recebe os rendimentos de um sobrado turístico que ousou comprar na planta, em dinheiro vivo, no início de um dos primeiros surtos imobiliários. Houve um tempo em que acalentava a idéia de abrir uma pousada, um estabelecimento de cinco ou seis quartos, choupanas em estilo rústico, além de bar e restaurante, no qual poderia se ocupar durante o verão, assar churrasco, preparar empanadas, além de fazer amizades sazonais, e garantir um bom dinheiro. A malemolência da vida brasileira, em especial do meio social litorâneo, logo o convenceram do contrário, e Valério contentou-se com seu dia-a-dia simples, temperado por relações vagas e circunstanciais com nativas bronzeadas e permissivas.

Uma ou duas vezes por semana, num café em Porto Belo, Valério reúne-se com três compatriotas, numa confraria de exilados que se contentam em maldizer o seu país. Discutem os eventos políticos sempre num tom fatalista e num nível superficial. Bebem bastante cerveja juntos, e acompanham os jogos mais importantes do River Plate. Estes são os únicos amigos no Brasil — Valério jamais conseguiu uma comunicação profunda com nenhum brasileiro, sinal de uma distância cultural maior do que normalmente se imagina existir entre as duas grandes nações vizinhas.

 

É fevereiro, cai o dia, e Valério toma a fresca na varanda ante o mar. Veste uma bata com amarra de cordões e calça sandálias de couro. A brisa refresca a sua pele rugosa e intensamente bronzeada, herança do Mediterrâneo, ainda mais escurecida após a tarde de stand-up e a natação matinal. É gostoso sentir as suaves rajadas de vento que tilintam a mandala de conchas pendurada na porta-janela e desgrenham os fios da sua longa cabeleira branca. O sol já se esconde nos morros, gaivotas voejam e pescam, Vênus rebrilha misteriosamente, a sombra da noite avança na praia, os últimos banhistas recolhem as tralhas, e as butucas devoram a sua canela e o seu calcanhar. Momentos assim legitimam a sua decisão de vir morar no Brasil. Em cima da mesa estende-se um papel de seda amparado do vento por um cinzeiro de pedra e um incensório de metal que pesam sobre ele. O argentino começa a fragmentar um grande tijolo de maconha, move os dedos habilidosos na palma das mãos. Por algum motivo cultural desconhecido, os costumes dos hippies, o consumo de drogas, os cabelos sujos, o vestuário grotesco, acabaram por se perpetuar na sociedade argentina, onde é muito comum a visão de gente esteticamente estacionada nos anos 70. Valério não era maconheiro quando advogava em Buenos Aires. Fumara um pouco no final da adolescência, e readquiriu o hábito tão logo chegou em Santa Catarina. Desde então, a maconha constituía um elemento central no seu novo estilo de vida, representava um símbolo de liberdade e relaxamento, e a cada fim de tarde ele repetia o mesmo ritual.

Valério tragava sem pressa. Logo, afundou numa divagação mental, o tempo desacelerou; sentiu os olhos secos, o reflexo retardado, a atenção autocentrada; um apetite feroz o dominou. Eram oito e quinze. Resolveu encomendar comida por aplicativo. Minutos depois, ao receber o pedido, teve uma visão desconcertante seguida de uma emoção confusa.

Foi um daqueles eventos banais que chacoalham sem volta uma existência serena. Valério Ceratti perdeu a paz. Diante dele se apresentava um rapaz de vinte e tantos anos, caixa de pizza na mão. A lâmpada instalada no beiral do telhado iluminava o rosto nítido contra o negrume da noite. Um nariz romano extraordinário sobressaía no semblante, e a jovem fisionomia parecia espelhar a figura do velho morador à porta. Um era o outro, o outro era o um. Idênticos, embora separados por uns vinte anos de diferença. O menino, contudo, não deu mostras de perceber o milagre, apenas entregou o pacote e ofereceu o teclado da maquininha de cartão.

No dia seguinte, Valério tentou seguir a rotina dos últimos anos. Acordou cedo, por volta das sete; o sol se erguia atrás do mar, tremeluzia nas ondas; um bem-te-vi cantava na janela, rebicava o alpiste na casa de passarinhos. O velho meteu a sunga, vestiu uma camiseta, calçou o tênis, saiu para caminhar. Ele sempre caminhava em jejum. Percorreu a faixa de areia duas vezes, ida e volta, e deu um rápido mergulho antes de voltar para casa. Enquanto comia o cereal vitaminado, ainda transpirando, pensava no encontro da véspera. Terá sido o efeito da maconha? Impressão dele, ou o rapaz também era argentino? A Wikipedia garante que um Doppelgänger “é um sósia ou duplo não-biologicamente relacionado de uma pessoa viva, por vezes retratado como um fenômeno fantasmagórico ou paranormal e geralmente visto como um prenúncio de má sorte”. O verbete é ilustrado por uma aquarela de Dante Gabriel Rossetti intitulada Como eles conheceram eles mesmos (1864) na qual dois rapazes iguais se defrontam em vestes medievais. Um deles desfalece de susto. A sensibilidade de Valério não lhe levou ao desmaio, mas ao ensimesmamento. Aquela manhã foi estranha. Ele não sentiu o prazer costumeiro quando instruía os turistas e lhes explicava o funcionamento do cilindro de ar. Mariana, a recepcionista da Pata da Cobra, é este o nome da escola de mergulho que faz passeios na Praia da Sepultura, notou o seu feitio taciturno, e sondou a situação com um ou outro comentário investigativo. Era uma mulherzinha miúda de mais de 30 anos, loira, gaúcha, encalhada e siliconada, já um pouco gorda, de traços bonitos, mas cuja imperfeição contrastava com a forma impecável das praianas – essas fanáticas da academia e dos filtros do Instagram. Mariana sempre alfinetava Valério. Ela se ressentia porque as quatro noites com o argentino em 2017, apesar dos seus grandes esforços sexuais, resultaram em fracasso, e não suscitaram nele o desejo por um relacionamento. Estava certo Molière: La grande ambition des femmes est d’inspirer de l’amour

Ao meio-dia, Valério almoçou os restos de pizza frios. Comeu direto da caixa encharcada de gordura. Há muito se acostumara àquela massa de farinha vagabunda, mal fermentada, coberta por um excesso de queijo salgado e barato. O antigo Valério portenho tinha veleidades gourmand, hoje extintas, brutalizadas. Fazer o quê? As coisas são assim no Brasil, sobretudo em cidade pequena. Após a refeição, ligou a tevê. Não conseguiu se concentrar em nada, apenas zapeou os canais. Um pensamento submerso o inquietava e não ousava aparecer. Saiu para tomar um cafezinho na rua principal. Fazia muito calor; o céu sem nuvens deslumbrava em seu azul imaculado. Valério encontrou muitas lojas fechadas, era dia de praia, poucos turistas comiam nos restaurantes de frutos do mar. Avançou três quadras sob o sol abrasivo; oscilava entre a calçada de petit-pavé e os deckzinhos de madeira; buscava proteção debaixo dos toldos e marquises, à sombra dos xaxins e suculentas. Na padaria, descobriu o aviso: VOLTO LOGO. O café do shoppinzinho! — mudou rapidamente de planos. Seguiu serpenteando a rua; um pedreiro dormitava na grama; uma lojista vestia um manequim. Após a igreja dos Navegantes, entrou na galeria comercial. A loja de bugigangas atendia o público, guarda-sóis, camisetas falsas, boias coloridas. Ao final do corredor, Valério chegou ao destino. 

Não era bem um café, mas servia café. Também ofereciam sanduíches, crepe suíço [sic], mate gelado e sucos naturais. Em cima do balcão havia uma máquina de chope e uma estufa de salgados. Valério pediu um expresso, sentou-se numa cadeira de plástico. Era o único cliente do lugar. O atendente lhe entregou uma xícara transbordante com líquido empapado no pires. Depois de limpar a porcelana com um guardanapo de papel, o argentino bebericou seu café. Estava morno. Uma onda de tristeza, então, pareceu afundá-lo. E se arriscou a refletir sobre aquilo que não queria pensar. Em breve, sessenta anos. Em breve, de fato, a velhice. Viveria para sempre assim? Se a solidão batesse, encontraria uma companheira?  Mais do que os pensamentos, a lembrança do seu duplo o importunava. A imagem do jovem estendendo a embalagem de pizza relampejava com insistência em sua mente, desde a manhã, de novo e de novo. Quem era aquele rapaz? De que parte da Argentina ele vinha? Terminou o café, uma borra suja restava no fundo da xícara. Súbito, uma idéia terrível lhe subiu à consciência, emergiu de alguma profundeza. E se fosse seu filho? Impossível não era. Sorriu sozinho, chacoalhou a cabeça, ergueu as mãos, pediu novo café. O balconista letárgico abandonou a contragosto o celular, levantou-se dificultosamente e foi preparar a bebida. Ao som do estrondo da máquina de expresso, Valério começou a lembrar dos motivos que o trouxeram ao Brasil. Foi-se abrindo todo um tempo na memória. Viu então o seu passado em panorama, infância, formatura, emprego, ex-mulher, vida em Buenos Aires, e um perfume de nostalgia lhe enevoou os olhos de saudade. Voltou a 2002, à encruzilhada. E se tivesse ficado? Se não houvesse desertado da Argentina? Se tivesse reatado o casamento? Tentado ter um filho? Toda uma trajetória alternativa se desenrolou rapidamente na sua imaginação, uma segunda vida, paralela, uma vida que não foi e talvez tivesse sido. Emergiu dos pensamentos à chegada do atendente lhe trazendo a segunda xícara. Bebeu, pagou, quis voltar para casa. No caminho, ponderou que a pizzaria de ontem era próxima. Improvável àquela hora, mas talvez a encontrasse aberta. Desviou o rumo, dobrou à direita, subiu um pequeno morro, avançou pela ruela estreita. O calor lhe maltratava. Um jovem ensaiava violão sentado numa rede no alpendre de uma casa de praia. A canção era horrível, uma batida de reggae, uma voz desafinada. No fim da rua, na esquina, no térreo de um pequeno prédio pastilhado, encontrou a sala comercial fechada. Um adesivo na porta de blindex informava atendimento a partir das 18 horas, indicava o telefone para entregas.

Após a cesta, Valério foi à praia, levou um livro. O sol arrefecia, o mar ondulava tranquilo. Abriu sua cadeira na ponta da praia, quase onde embarca o passeio do navio pirata. Um homem vestido de colete, bandana e tapa-olho abordava turistas com um maço de papéis em mãos. Entregava os panfletos, exaltava a excursão. Diante das ondas, uma criança esculpia um castelo de areia, e duas gordas colossais posavam de biquíni para uma sessão infinita de fotos para o celular. Uma delas parecia a Ophah Winfrey, e ostentava uma tatuagem de dragão nas costas; tinha os braços cobertos de gravuras, como se fossem um gibi.

Valério apanhou o livro, uma edição de bolso, abriu-o na página marcada previamente. Tentou se concentrar na leitura por um minuto. Leu duas vezes a mesma linha, avançou o parágrafo em vão. A mente divagava, longe. Atirou o livro na areia, a capa voltada para cima: El Poder de la Gratitud: 7 Ejercicios Simples que van a cambiar tu vida a mejor. E agora, Valério? Mudaria a sua vida a mejor? Restava tempo? Voltou, então, a fitar a praia de Bombinhas, reconhecendo cada prédio, cada lanchonete, cada restaurante. Muito crescera durante os vinte anos. Ali, não havia nada senão um terreno baldio; lá, houve uma casa onde hoje há o hotel. Tudo parecia ter progredido, prosperado com o transcorrer do tempo. Mas e ele, Valério, progredira, prosperara? O incômodo por sentir incômodo foi sua maior fonte de dor. Por que se atormentar com essas coisas? Afinal, eram coisas! Por que se impacientar, no fundo, por causa de dinheiro? Com desgosto, Valério percebeu como é difícil se libertar das engrenagens sociais e viver de um modo verdadeiramente desprendido. Sim, ele se importava, sim, aquilo doía.

Uma boa parte do charme e da sedução da indústria do turismo do litoral catarinense, ao menos no que diz respeito ao consumidor argentino, sempre derivou de uma comunicação que busca um segmento de mercado afeiçoado aos valores da contracultura do final dos anos 60. O zelo pela natureza, a prática do nudismo, o uso de psicotrópicos, a adesão à uma espiritualidade frouxa e permeada por elementos orientais, além, é claro, da promiscuidade sexual, compõem o sistema de crenças sobre o qual operam as promessas publicitárias. Fazer uma viagem ao Brasil, sobretudo de carro, traduz sentimentos de abandono e emancipação. A emoção é reforçada caso seja temperada com ingredientes de “aventura” como o uso de um motor home e a hospedagem em um hostel ou num camping. A maior parte, contudo, utiliza o complexo hoteleiro que se estabeleceu em Florianópolis e Balneário Camboriú a partir das décadas de 70 e 80, e que recebe mais de 70% dos turistas argentinos do estado. Constituído maiormente por hotéis de 3 estrelas, de médio porte e administração familiar, esta atividade colhe até hoje os frutos dos investimentos em divulgação feitos em feiras setoriais há quarenta ou cinquenta anos, época em que a Argentina ainda tinha um PIB per capita três vezes superior ao brasileiro, e quando não era raro ver as Aerolíneas despejarem no Galeão algumas centenas de milionários dispostos ao consumo de luxo no Rio de Janeiro. Hoje, com o país vizinho irremediavelmente empobrecido, o turista argentino padrão em Santa Catarina chega de ônibus ou carro, e provém das modestas províncias do Norte ou até mesmo de locais distantes como Córdoba e Rosário. Para esta classe média decaída, tomar a estrada em direção a uma praia catarinense significa libertar-se de uma rotina de trabalho sufocante e sem perspectivas, e de um meio social burguês e estreito. Acima de tudo, emigrar, viver onde os outros passam férias, é muitas vezes considerada a culminância de um estilo de vida desapegado e, por que não dizer, sábio. 

Valério Ceratti não se sentia sábio neste momento. Vinte anos. Vinte anos estéreis. Vinte anos sem sentido? Assim, talvez, no instante em que reavaliava a sua vida, nos rápidos minutos em que a sorte recente e a sorte futura eram sopesadas por aquele homem de meia-idade, a alguns milhares de quilômetros de lá, para além do oceano, num continente velho e cansado, no seu apartamento dos anos 70, no 13º arrondissement de Paris, uma vizinhança de apart-hotéis e mercearias asiáticas, o escritor e agrônomo Michel Houellebecq talvez estivesse escrevendo, talvez ele vestisse uma camiseta jeans sobre o seu tórax côncavo, o queixo firme sobre o punho dobrado, meio feminino, um olhar pensativo e lunático na direção da janela, talvez ele sentisse os efeitos de uma ressaca e apagasse cigarros consecutivos num cinzeiro atulhado, e talvez, diante dele, num laptop aberto, refletindo tenuamente o seu penteado de louco, houvesse um brilhante parágrafo semiacabado que descreve o vazio inumano da cultura contemporânea. Pobre Houellebecq. Trinta anos narrando solidões e angústias de gente sem fé. Pobre Houellebecq, cronista de uma civilização no seu fim. Pois neste momento capital, quando o destino de Valério Ceratti está em jogo, a lembrança dos seus personagens exaustos, consumindo-se em pequenos prazeres, à espera da morte, pareceria uma sincronicidade junguiana.

 

À noitinha, Valério repetiu o cerimonial costumeiro, na mesma varanda, diante do mesmo panorama, o sol se pondo, as ondas mansas, enrolou e fumou o mesmo baseado. Veio a mesmíssima fome, e ele pediu, de novo, a mesma pizza da mesma pizzaria. Mas a maconha, desta vez, não lhe provocou satisfação, Valério mergulhou num estado soturno, aflito, quase deprimido. Ao notar quem lhe trazia a pizza, porém, recebeu uma infusão de ânimo. E após o retinir da campainha, abriu a porta contente, curiosíssimo, um tanto assustado também. O rosto do menino revelava-se novamente sob a luz. Era assombroso, uma cópia fiel, uma reprodução mais jovem, um tipo de retrato de Dorian Gray. Passado o baque, Valério buscou um meio de ser simpático e encontrou uma brecha para puxar conversa em meio ao rápido procedimento de entrega e pagamento. Conseguiu encaixar a pergunta:

— Você é argentino, não?

O jovem sorriu e fez que sim com a cabeça.

Valério insistiu:

— E mora aqui há quanto tempo? 

— Alguns meses… – respondeu, simpático e reticente, já se voltando para a rua.

— Espera aí!

O entregador estacou, olhar ressabiado.

Valério sacou outra vez a carteira, tomou uma cédula de dez reais, estendeu-a ao menino.

— Uma gorjeta

Um influxo imediato de constrangimento o surpreendeu e ele logo se arrependeu do que fez por perceber que o rapaz, apesar de aceitar o dinheiro, examinava-o com uma desconfiança viva. O que estaria pensando naquele instante? Suspeitava que Valério fosse um velho depravado, um homossexual? Teria ele percebido a ação da maconha, os olhos pesados, a lentidão dos movimentos? Disse um hasta luego, então; acenou e fechou a porta. Pela fresta da cortina ainda viu o compatriota se acomodar na motocicleta, vestir o capacete, dar a partida, ir embora.

 

Noite seguinte, quarta-feira, Porto Belo, reunião dos desterrados. Valério bebe um copo de Quilmes gelada; senta-se de lado, as costas apoiadas na parede. O café é nanico, mas tem os seus encantos, quadros decorativos com paisagens patagônicas, mesas de madeira de demolição. Raul, o proprietário, é um portenho divorciado de cinquenta anos, graduado em odontologia, mas que virou doleiro e dono de bar, e cujos tons de grisalho lembram os homens sorridentes das embalagens de tinta para cabelo. Ele veste um avental, e esquenta no forno as empanadas, enquanto Maurício crava os olhos na televisão: futebol. A câmera exibe em zoom os jogadores perfilados, saltitam, sorriem. Um juiz de olhar altivo traz a bola nas mãos. Todos pisam no gramado; uma explosão de euforia bárbara toma conta do lugar, gritos, cânticos, tambores. Da arquibancada, cai papel picado, e um enxame azul e amarelo zune e vibra no Gigante de Arroyito. Valério dava atenção esporádica, é torcedor, mas do tipo displicente. Maurício não, Maurício acompanha futebol com respeito hierático, é daqueles que sofrem no corpo pelo River Plate. Trata-se de um homem alto e magro sem musculatura, natural de San Isidro, de cabelo nos ombros e cavanhaque ralo. Veste uma camiseta preta dos Ramones, uma bermuda rasgada e um chinelo de borracha. Deve ter os seus trinta e cinco anos, e ninguém sabe ao certo se trabalha ou não. Com a voz estrídula, reclama silêncio, exige interesse pelo espetáculo.

Sem demora, chega o quarto integrante da confraria, o jovem paraguaio, sempre atrasado. Pedro pergunta quem está jogando e sem ouvir resposta já pede um copo de cerveja. É um paraguaio não estereotipado, é loiro, tem os olhos azuis. Pelo que Valério sabe, formou-se em qualquer coisa em Curitiba, seu pai é brasileiro, a mãe assuncena, e ambos tocam uma grande fazenda de soja perto da divisa com o Paraná. 

Raúl, pois, abandona de vez a cozinha. Remove a luva térmica, desveste o avental. Deposita a travessa de empanadas sobre a mesa; e se senta. O time está completo.

Na tevê, os atletas já se lançam sobre a bola, disputando-a com aquela ferocidade de que só um atleta hispano-americano é capaz.  Uma falta, outra, um cartão amarelo. Os nossos expectadores esvaziam os copos entre seguidas interjeições. Maurício acompanha a transmissão como se daquilo dependesse sua vida. Era um confronto era importante, diria.  E a cada ação, a cada chute, a cada cabeceio, erguia os braços, projetava o dorso para frente, recuava, bufava; em suma, manifestava fisicamente a sua co-partipação naquele evento longínquo. Os outros não chegavam a tanto. E o paraguaio não estava nem aí.

Valério e ele tentaram conversar, mas já às primeiras palavras, uma interrupção, um tapa na mesa, um lamento.

Gol? Valério espia a tevê. Já? De quem? Do Central?

Um jogador cabeludo corria batendo no peito. Close nele: olhar severo, boca em formato de O, recebe abraços de companheiros. Então, close no goleiro: semblante contrariado, um leve movimento de reprovação com a cabeça, os lábios resmungando alguma coisa.

Os minutos seguintes viram a dispersão do interesse pelo jogo, que perdera muito em intensidade e se transformara em atração tediosa. Assim, mesmo Maurício foi vencido pela pauta dos amigos e logo se viu implicado nos debates do dia. A transmissão restava ali, ao fundo, como um simples chiado, um enervante som ambiente. Vez ou outra, instigados por uma nota mais alta na voz do locutor, os homens espiavam a tela, viam um replay.  Em geral, contudo, relevaram o espetáculo a um segundo plano. E até que o árbitro trinasse o apito e encerrasse o primeiro tempo, discutiram uma sequência incoerente de assuntos. Primeiro, induzidos por Raúl, quem lhes informara as notícias locais, deliberaram rapidamente alguns pormenores indignantes sobre as intrigas municipais, a falta de água em Bombinhas, a ida e vinda de caminhões pipa, a negligência perene dos governantes; depois, num giro surpreendente no tema, entabularam uma discussão, com efeito, uma pequena controvérsia, responsável pela formação de dois distintos partidos. Maurício e o paraguaio evocavam o argumento do custo-benefício para sustentar a indiscutível superioridade do Ford Onix sobre o HB20 da Hyundai, no que eram profusamente contestados pela facção contrária, Raúl e Valério, violentos entusiastas da multinacional sul-coreana. Ao final da altercação infrutífera, quando a repetição de argumentos deixava claro um inegável empate, moveram subitamente as conversas na direção geopolítica, terreno onde encontraram um novo impasse. A análise da concentração de tropas russas na fronteira ucraniana dividiu opiniões e provocou um rearranjo nas alianças, desfazendo as coalizões anteriores e constituindo uma nova ordem. Agora eram Raúl e Valério que estavam de acordo e confrontavam as posições estáticas do bloco formado por Pedro e Maurício. Haveria uma invasão? Que parcela de culpa tinham os americanos? Putin, afinal, ainda era comunista? O debate foi inconclusivo e só terminou quando todos anuíram com a cabeça e acordaram doutamente que uma guerra nuclear é o fim do mundo, é impossível, nunca vai acontecer.  

O intervalo da partida aliviou os espíritos. Raúl substituiu o som da televisão por música ambiente, uma playlist dos anos 80.

Valério sentia-se cansado, secou a oleosidade da testa com um guardanapo de papel, e considerou a hipótese de voltar mais cedo para casa. Talvez a existência de uma turma de mergulho logo cedo pela manhã fosse recebida como um aceitável pretexto.

Entretanto, foi ao banheiro. Diante do mictório percebeu que havia bebido um pouco demais, ou melhor, que havia comido de menos. Uma leve embriaguez se insinuava nos seus pés cambaleantes. Também sentia uma alegria tênue, algo como um contentamento físico, uma desopressão. Lavou as mãos e mirou-se no espelho. Deteve-se por um segundo contemplando o próprio reflexo. Sorriu. Sorriu por ter sorrido e pensou que estava bêbado. Voltou a lavar o rosto e ajeitar o cabelo. Foi só aí que notou como o lugar era sujo, insetos mortos se acumulavam com a poeira do chão, o espelho tinha pingos de ferrugem. Mas a descoberta não o incomodou. Sorriu para si mesmo de novo. Definitivamente estava bêbado! Lembrou das empanadas, talvez restasse algo na travessa. Por fim, olhando e sorrindo uma terceira vez para o espelho, inspirou, encheu de ar os pulmões. Triunfante, pensou: “Que vida boa! Sou feliz aqui.” 

Valério nunca poderia imaginar qual surpresa extraordinária o aguardava no retorno ao salão.  Um homem, mais precisamente um rapaz, elemento estranho naquele convívio, estava sentado à mesa e conversava animadamente com os outros colegas e com o proprietário do lugar. Vestia uma camiseta branca e vermelha do River Plate e, ao seu lado, sobre uma cadeira, jazia um capacete de motocicleta. É fácil adivinhar quem ele era.

Raúl disse:

— Valério, conheça… Valério! Sim, ele vai ser o mais novo integrante aqui da nossa confraria.

Valério, o velho, estendeu as mãos a Valério, o jovem, num aperto de mãos tíbio, maquinal, um aperto de mãos quase incrédulo, se é que assim se pode adjetivar.

Somente quem passou pela experiência de confrontar um sósia tão correspondente (ninguém), e além do mais homônimo, consegue imaginar o turbilhão de emoções que supliciavam o nosso Valério. Ele ficou sem palavras por um tempo. A situação lhe parecia inimaginável, completamente incompreensível. E a cafonice da canção ambiente recrudescia o momento de sonho. George Michael cantava: I’m never gonna dance again, guilty feet have got no rhythm, though it’s easy to pretend, I know you’re not a fool.

Logo, porém, a partida recomeçou na tevê, e a cerveja, e os debates, voltaram a centralizar a atenção de todos. Aparentemente ninguém, nem mesmo o próprio duplo de Valério, deu-se conta da espantosa similitude. Como era possível? O prodígio passava desapercebido.

Valério Ceratti, então, resolveu não resolver nada. Refeito do espanto inicial pelo encontro inesperado, e ainda sob o efeito da felicidade descoberta no banheiro, pediu a Raúl mais empanadas, mas estas haviam acabado, de modo que recebeu como alimento uma porção de amendoins e um pacote de batata chips. Comeu os aperitivos com apetite e glutonaria, às mancheias, veloz, rumorejando muito, enquanto entremeava opiniões sobre tudo o que pautassem e enchia a pança fartamente de cerveja. 

A sequência das conversas não diferia muito dos debates do primeiro tempo. Embora fossem novos os assuntos, reinava ainda a mesma argumentação enfática e o mesmo direcionamento anárquico. Valério mal sentiu o avanço da noite, e, quando percebeu, o jogo já estava nos acréscimos. Prestou atenção aos minutos finais, agora com interesse sincero, e até sofreu um pouco com a dificuldade do seu time em empatar o jogo por meio de chutões para o meio da área. Ao apito final, decretada a derrota, lamentou algum tanto, trocou algumas queixas com Maurício, quem insultava o técnico e vários jogadores, mas logo esqueceu do assunto.

A cervejada os havia inflamado, e como não passava das dez e meia, alguém sugeriu que continuassem a gandaia em algum outro lugar. Valério era outro, era todo energia, muito eloquente, já não sobrava nele nenhum sinal de cansaço. 

Após rápida deliberação quanto ao destino, enxugaram os restos de cerveja nos copos, ajudaram a recolher as mesas e a empilhar cadeiras, ao mesmo tempo em que Raúl apagava luzes e trancava as janelas do lugar. Postos na rua, saíram para caminhar.

 

Fazia uma noite gloriosa – estrelada, quente. Uma lua magnífica iluminava a baía de Porto Belo, banhava a areia branca, a calmaria oscilante do mar; e um vapor salino grudava na pele, envolvia o mundo. Valério Ceratti amava aquela aragem viscosa, a nota inconfundível do litoral. Sem dúvida naquele momento estava intensamente feliz. Experimentava a felicidade de quem enche os pulmões com força e depois suspira com satisfação. A sensação triunfante de quem se contenta por estar onde está. 

Na orla, ele contemplou primeiro as traineiras, os botes e canoas, dezenas de barcos pesqueiros que balouçavam deliciosamente sobre as águas, depois, estendeu o olhar para adiante, e observou ao longe as janelinhas acesas, as impressionantes luzes de Itapema e Perequê. Quantos prédios altos, como aquilo havia crescido! Quanto valia hoje um apartamento daqueles?

O bando avançava sem fazer arruaça, mas conversando acesamente. Valério, o jovem, levava nas mãos o capacete. Ultrapassaram o molhe e o embarcadouro dos passeios de escuna, e seguiram alguns metros na rua de paralelepípedos. Duas finíssimas palmeiras muito altas sacudiam a folhagem verde sob a brisa. Chegaram ao calçamento moderno, do lado esquerdo, pousadas, restaurantes “pé na areia”; à direita, casas de veraneio, anúncios de aluguel. Maurício mijou titubeante num poste de ferro apagado. Então trotou pressuroso para alcançar os amigos.

O bar ficava numa construção antiga, uma das poucas casas açorianas ainda de pé. Era um solar amarelo de dois andares com telhas de cerâmica e grandes portas e janelas de madeira. No térreo mal adaptado funcionava o boteco. Só Deus sabe o que haveria no segundo piso.

Dentro tocava samba, ou pagode, quem dirá a diferença? Uma dúzia e meia de mesas com cadeira de plástico compunham o lugar. Estavam quase todas ocupadas. O piso de ladrilho original parecia há muito escurecido. Ao fundo, próximo ao biombo dos banheiros, havia um longo balcão com uma estufa de vidro e um painel de venda de cigarros. Numa parede descascada via-se um anúncio de cerveja com uma mulher de biquini exíguo. Sorria e exibia uma latinha vermelha. Seus peitos siliconados eram absurdos, colossais.

Valério Ceratti gostou de saber que a cozinha estava aberta e pediu corajosamente uma porção de camarão soltinho. Logo o garçom trouxe a primeira rodada de chope, um IPA artesanal avermelhado de fabricação própria (R$ 17,00 – caneco 300mL) com um belo amargor crescente e alta refrescância no paladar.

Tintim, brindaram, copos ao alto, fervores de eterna amizade. O alvoroço de batuques e vozes provocava um pandemônio exasperante.

Enfim chegou o camarão, quatrocentos gramas do crustáceo empanado e servido numa travessa de metal elíptica decorada com uma folha de alface. Valério investiu de imediato, mas antes se lembrou de espremer algumas gotas de limão. O perfume cítrico no ar encheu o seu coração de um contentamento expectante. À primeira mordida já sentiu imenso prazer no contraste do interior suculento e quente com a casca crocante e ácida. Perfeito. Simplesmente perfeito! Como é bom esse limão verdinho, mais forte, diferente daquele outro, o argentino, tão suave e amarelo!  Então recordou com alegria muito remota a sua primeira viagem ao Brasil. Quantos anos teria? Seis, sete? Numa noite de calor muito intenso abriam ostras sentados em roda nas cadeiras de praia. Um dos seus primos pequenos pedalava um triciclo. Seu tio sem camisa zunia uma vara de pescar para espantar os morcegos, depois se servia de uma garrafa de uísque disposta na boca da churrasqueira. O lugar era uma garagem, havia um carro. Mas onde? Decerto na casa alugada de Canasvieiras, a mesma de muitos verões. Valério bem se lembra do amplo banheiro revestido de azulejos antigos e da pia barulhenta cuspindo água suja. Existe em algum lugar uma foto daqueles dias. Passavam sempre a manhã e a tarde na praia, mesmo se nublado ou com chuva, e ele deslizava durante horas na espuma das ondas com sua pranchinha de isopor. Nos dias mais quentes a faixa de areia ficava superlotada e mal havia espaço para brincar com as outras crianças argentinas no meio de tantas esteiras e guarda-sóis. Todo aquele tempo solto consistia em um contínuo exercício de imaginação. Ele corria, mergulhava, jogava bola, chupava picolé e se lambuzava por inteiro. Um dia o seu priminho se perdeu, para desespero de sua mãe e sua tia, que saíram histéricas a procura do menino. Por sorte foi encontrado em poucos minutos, graças às palmas dos banhistas, a cinquenta metros de onde estavam sentados. Mais tarde, interrogado, admitiu que fora atrás de um vendedor de pipas; e prometeu, com decisão sincera, nunca mais se afastar demais do guarda-sol. Só iam embora da praia quando fazia sombra e o sol já se punha, ou então quando chovia demais e os relâmpagos ficavam perigosos. Sua mãe convocava as crianças, que lavavam os pés e os brinquedos na ducha instalada na calçada pela prefeitura. Depois, tomavam banho no chuveiro elétrico e se secavam com cuidado para não arranhar a pele avermelhada pelo sol. Recolhiam-se no quarto e tentavam dormir enquanto ouviam os adultos divertindo-se na sala. Eles riam, conversavam, bebiam, ouviam rádio e jogavam baralho, os hábitos comuns daquela época em que as pessoas ainda tinham tempo para o tédio. Nas noites mais felizes, porém, todos saíam jantar fora. Valério gostava quando pediam arroz à grega e seu pai sempre se orgulhava do filho sem frescura que já comia camarão e marisco. Devem ter sido uns quatro ou cinco anos consecutivos daquela alegria. O ano escolar em Buenos Aires decorria longo e aborrecido, mas as poucas semanas de verão marcavam forte na memória. Valério Ceratti sabia: aquelas lembranças embaçadas eram a causa inaugural do seu amor pelo Brasil e o motivo último pelo qual vivia hoje em Santa Catarina.   

A refeição cortou bastante o efeito do álcool, como era pretendido, e Valério conseguiu aguçar as percepções, ouvir a tal da voz da consciência. Conseguiu, ao menos, perceber que algo o enervava. Por um instante apreciou a loquacidade divertida dos amigos, conversavam, bebiam, sem que os ouvisse com exatidão. Experimentava um estado letárgico; o retorno à lucidez não estava concluído. Por alguns segundos, ainda, Valério se abstraiu, esteve entregue à meditação casmurra. Subsistia nele algum motivo incerto de perturbação. Uma das fontes de incômodo, ele logo percebeu, se tornara o persistente e esmagador volume das caixas de som. O batuque e a algazarra dos sambistas bloqueavam o pensamento reto e impediam qualquer forma de recolhimento. Aquela barulheira conspurcava a sua mente. Entretanto, reorganizou como pôde as idéias, e inclusive quase teve um impulso de responsabilidade. E o mergulho amanhã? Quase ao lado, porém, ele enfim nota, ou melhor, enfim lhes devota maior interesse, um grupo de meninas numa mesa muito próxima fofocava e sondava os gringos sem muita dissimulação. Soltavam risinhos, gargalhadas ciosas de atenção, olhares rápidos (mas de modo algum furtivos), o armamento de sempre. Valério percebera a presença delas quando entrou no bar, aonde quer que fosse os reflexos de velho solteirão sempre o compeliam a demarcar um rápido perímetro com alvos femininos. As brasileiras, que eram quatro, formavam sob qualquer critério um conjunto desparelho, irregular na idade, na beleza e no manequim. Igualavam-se, é certo, na vulgaridade. De nenhuma se pode dizer que tinha uma beleza admirável e Valério se sentiu satisfeito por meramente constatar que era objeto do entusiasmo e interessa delas.

Mas essa não é uma história grosseira de aventura sexual. O velho Valério se viu vítima de uma preguiça encorpada. Um filme se passou num vislumbre em sua cabeça, aquele tipo de projeção somente possível a quem já acumulou experiência na vida, e ele pensou no horário avançado, no dia da semana, e inventariou todos os esforços que lhe seriam necessários, a conversa fiada, o tempo gasto, ponderou os possíveis percalços, os joguinhos femininos, as recusas hipócritas, a sua ereção incerta, deduziu a consequente falta ao trabalho e a ressaca da manhã seguinte; equilibrou tudo numa balança mental, comparando a recompensa rala com a energia dispendida, e facilmente concluiu: não valiam a pena.

Voltou a atenção aos amigos, decidido a sintonizar a conversa. Foi então que Raul interveio de um modo inesperado e proferiu, ex nihilo, uma frase que Valério esperara antes, mas não naquele momento:

— E não é que os dois Valérios além de terem o mesmo nome também são parecidos? Reparem, reparem, o nariz, a boca, é igual!

Maurício e Pedro viraram o pescoço para lá e para cá, como faz a plateia de tênis, e num segundo estouraram numa farta gargalhada concordante.

Durante alguns minutos só falaram do mesmo assunto e todos fizeram tudo o que lhes estava ao alcance para constranger os dois colegas de bar. Usaram um longo e pouco criativo repertório de deboches que logo culminou, dadas as premissas e as personalidades envolvidas, num gracejo previsível. Raul disse:

— Parecem pai e filho! São iguais mesmo. Você tinha um filho e não sabia, Valério!

Os objetos de chacota recebiam os golpes sem muito reagir, quase em silêncio, afetando a indiferença e sorrindo embaraçados. Ambos soltavam somente, como forma de defesa, um eventual comentário cético, algo do tipo: “nada a ver, não somos nada parecidos”. Mas mentiam, e sabiam disso.

O fato estava, portanto, consumado, a parecença fora decretada pelo grupo, não haveria mais meio humano que os fizesse esquecer o assunto ou mudar de opinião. Os Valérios teriam de viver com aquilo.

Surgiu, então, o garçom com mais chopes na bandeja. E, como a chama de uma churrasqueira ao respingo de uma gota de álcool, a piada que já estava arrefecendo ganhou um novo sopro energia. A trupe tomou o garçom por testemunha. Insistiram tanto que o pobre homem não teve escolha senão concordar, com a cabeça e com os lábios, que a semelhança era impressionante, que nunca tinha visto nada igual, e que certamente os dois tipos eram pai e filho. Para quê? As zombarias recrudesceram novamente e só se acalmaram quando Raúl, com lágrimas de riso nos olhos, fez um comentário supostamente concludente:

— Essas coisas acontecem, meu caro, vocês não viram o primeiro-ministro do Canadá? Não viram? O cara é a cara do Fidel Castro quando jovem. Idêntico, não tem o que tirar nem pôr – e sacou o celular para pesquisar no Google as imagens que comprovassem a veracidade daquele fenômeno estrondoso.

Enquanto era debatida a real e surpreendente semelhança entre o ditador canadense e o falecido ditador cubano, o nosso Valério Ceratti resolveu puxar assunto com o seu jovem sósia e homônimo.

— Agora aguente, eles vão sempre pegar no nosso pé. Eu conheço o Raúl, ele é terrível. 

— Eu sei como é, não tem problema.

 

Na manhã de 24 de fevereiro de 2022, Valério Ceratti despertou em sobressalto. O sol inundava o quarto por causa das cortinas abertas e o seu sono fora interrompido. Desde a abolição do horário de verão que o dia começava cedo, às vezes cedo demais. Mal passava das cinco e lá fora já estava claro. Valério tinha sono, sede, fome e dor de cabeça. Mas era outra coisa que o importunava. Os fragmentos de uma noite de terror, com muitos pesadelos, começavam a se reagrupar no seu espírito. Em especial, uma passagem inquietante, um diálogo, se apresentava com maior nitidez e alguma insistência. Levantou-se, pois, de mau humor. Diante do espelho do banheiro, lavou o rosto, passou água nos cabelos, suspirou. Quanta preguiça! A perspectiva de dar uma aula dali a algumas horas lhe causava grande irritação. Que vontade de jogar tudo para o alto! Largar essa merda de mergulho! Mas Valério Ceratti não desertou naquele dia. E a sua decisão inocente de ir ao trabalho naquela manhã viria a se revelar um ponto final em sua vida.

Sete horas, caminhada matinal. A dez mil quilômetros da praia brasileira, tanques russos se aproximam de Kiev. Aqui, as imagens noturnas visitam Valério insistentemente. Ele não quer se lembrar, não se fixa no assunto, nunca foi seu costume ruminar os pesadelos em busca de algum presságio ou de sentido. As visões persistem, porém; e ele não pode evitar um feroz desconforto ao recordar de uma cena funesta da noite anterior, uma episódio tão desconcertante que ele inclusive de manhã relatou. Ele estava na varanda. A noite cerrada não tinha uma luz, mas se ouvia o barulho das ondas revoltas quebrando nas pedras. Súbito, uma aparição, algo visível, mesmo nas trevas, algo delineado por uma luminosidade tênue e espectral. Valério vê, Valério percebe a silhueta masculina escorada de costas no parapeito de madeira, imóvel, mirando o mar, e o reconhece mesmo sem poder encará-lo. Não há dúvidas. É ele. Quem? Ele mesmo, ele, Valério, duplicado misteriosamente. Não se trata do jovem argentino entregador de pizza, tampouco de algum sósia muito parecido. Aquele ente inerte na sua própria varanda, e que volta o rosto na sua direção, não é outra pessoa. É simplesmente ele, ele mesmo, simultaneamente um e simultaneamente outro. Quem poderá explicar? Então, algo mais acontece. O duplo fala: “Ouça, Valério, ouça! Por quanto tempo você pretende continuar contente?” O sonho se transforma. Valério ainda está na varanda, mas sozinho. A mandala pendurada na porta-janela brilha e se mexe estranhamente; as formas geométricas concêntricas parecem vivas, parecem rodear. Ele está na varanda mas também está nas pedras, no canto da praia. A noite é escura. Agora Valério está somente nas pedras, não há mais varanda. É possível ver as ondas agitadas e a linha do horizonte sob uma luz fosforescente. Surge então ao longe, acima do oceano, uma luz pequenina e circular deslizando em silêncio sobre as águas. Logo aparecem outras luzes idênticas, que bailam, como gigantes vagalumes. Elas dançam, voejam e espiralam loucamente; afastam-se e se unem feito um enxame de abelhas. De repente, somem; e mergulham no mar.

 

O que aconteceu depois fiquei sabendo no hospital em Florianópolis, para onde os socorristas do corpo de bombeiros transferiram Valério de helicóptero. Quem me relatou os fatos foi a ex-esposa dele, que veio ao Brasil às pressas visitá-lo. Ela estava abalada, mas conseguiu narrar de modo coerente.

Valério instruiu a turma de mergulho como de praxe na fatídica manhã. Os colegas da escola Pata da Cobra não perceberam nele nada diferente. Somente um dos alunos do dia, um rapaz do interior de Paraná, testemunhou que achou o instrutor um tanto taciturno. “Caladão” e “estranho” foram os termos exatos que empregou.

Os mergulhos em dupla iniciaram por volta das dez horas e uma moça chamada Sheila, de Ribeirão Preto, foi quem primeiro o acompanhou. Estiveram cerca de quarenta minutos no fundo do mar e, segundo ela, tudo correu na mais estrita normalidade, Valério se mostrava presente e responsivo, entendia perfeitamente os comandos, e foi possível apreciar bastante os corais e peixinhos da praia da Sepultura.

Após o passeio, ninguém sabe ao certo porque Valério voltou a mergulhar. Não sabem também que horas ele entrou no mar, tampouco quanto tempo permaneceu submerso. O certo é que às onze e vinte da manhã uma família percorrendo uma trilha ao longo das pedras do canto da praia avistou Valério boiando de bruços e desacordado. Ele vestia a roupa isolante preta, estava de máscara e pé de pato, mas não havia sinal do cilindro de ar. Os bombeiros que o resgataram minutos depois levantaram algumas hipóteses, mas sem o testemunho do próprio Valério, que se ora encontra em coma e, nos desenganou o médico, talvez vegete para sempre, não conseguem precisar o que de fato aconteceu. Aventam que ele estivesse bêbado, que esqueceu de recarregar o cilindro, ou até mesmo que tentou se matar.

Não acredito em nada disso. E gosto de pensar que Valério por algum motivo quis contemplar sozinho as profundezas daquelas águas translúcidas de um verde quase caribenho. 

Só não sei ao certo o que ele imaginava no fundo encontrar.

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Detalhes do autor

Diogo Fontana

Nasceu em Curitiba em 1980. É autor dos livros “A Exemplar Família de Itamar Halbmann” e “Se Houvesse um Homem Justo na Cidade”.

Já contribuiu com artigos para o jornal Gazeta do Povo e para os sites Mídia Sem Máscara, Senso Incomum, Estudos Nacionais e Brasil sem Medo.

Mora em  Santa Catarina, com a esposa Gabriela e o filho Constantino.