A Esperança de Clarice

18, nov, 2019 | Artigos, Literatura | 0 Comentários

Desenvolvi para minha própria orientação – sem me preocupar com rigor técnico, nem muito menos com originalidade – uma classificação da literatura em prosa: no conto, domina a circunstância, que pode bem ser o banal ou o inusitado; a novela sempre salienta um tema específico, às vezes para pôr à prova uma tese (como o faz expressamente Thomas Mann em A morte em Veneza); o romance, como nos ensina Olavo de Carvalho, é uma biografia, o drama de uma vida, sendo as circunstâncias e os temas enfrentados e absorvidos na luta dos personagens por sua autorrealização.

A diferença é sútil, claro, uma questão de ênfase, como não poderia deixar de ser tratando-se de algo referente ao espírito, à intencionalidade humana. Tanto é que às vezes a própria intenção pode falhar, ou parecer falhar, como em Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas já foi rotulado de “encadeamento de contos” porque as circunstâncias têm sempre maior relevo do que os próprios personagens, como a cena inicial da Natureza o diz literalmente. Em geral, Machado, que seria inigualável contista se não fosse tão monotemático (a fraqueza interior dos homens), também nos romances submete seus personagens aos acontecimentos, frustra deliberadamente qualquer tentativa deles de reação, jamais aceita que se tornem agentes conscientes superando as vicissitudes da vida – que é o natural do homem e, pois, do romance. Aires é realmente a exceção que confirma a regra, porque sua lucidez somente incide sobre a vida dos outros – nunca vi os críticos literários perceberem quão terrível é isso: o personagem mais elevado do maior escritor brasileiro escreve um diário sobre a vida alheia, tornando-se, com ares de observador culto e imparcial, apenas um baita fofoqueiro.

Agora que chamei sua atenção, leitor, com essa polêmica – mas sincera e pertinente – introdução, entro logo no que pretendo tratar: a novela A hora da estrela de Clarice Lispector. Obviamente, chamo-a novela pelo critério referido, incluídas as ressalvas. Pouco conheço sobre a autora, também estou longe de dominar o conjunto de sua obra, mas ter sido essa novela um dos seus últimos escritos é fato bastante, creio, para nos provocar reflexões mais profundas. De qualquer maneira, este breve parecer é um início de conversa, como uma provocação aos amigos, com o deliberado intuito de tornar visível, em um texto aparentemente despretensioso, um dos grandes temas da humanidade: a esperança como o verdadeiro ser interior da pessoa, aquilo que lhe dá dignidade propriamente humana.

Para tanto, basta compreendermos o estranho caminho seguido pela autora, atentos e certos de que para os gênios criativos nada é insignificante, nada é posto gratuitamente.

A Esperança de Clarice

Pois bem, a enrolação do narrador em dar seguimento à história, retornando diversas vezes ao mesmo ponto – a inanidade interior de Macabéa –, é o nó central. Precisamos encontrar seu sentido, sua função na dinâmica da novela. Como já adiantei o seu tema, é agora perfeitamente clara a razão do imbróglio inicial: não é fácil acreditar que alguém seja como Macabéa.

Embora tenhamos a impressão de conhecer pessoas sem consciência, sem elã vital, na verdade se trata apenas de uma impressão subjetiva e arbitrária. Projetamos indevidamente essa característica apenas porque alguém não possui interesse naquilo que para nós seria “obviamente” merecedor de atenção. Olhamos um gentil e humilde senhor sentado à beira de um rio numa terça-feira, no horário de expediente, como se ele não possuísse qualquer ambição em “subir na vida”, quando, de fato, no seu coração habitam paixões fulminantes pelo bem de seus filhos ou de seu Deus. Enfim, dificilmente buscamos conhecer profundamente alguém que nos parece, num primeiro olhar, sem qualquer atitude perante a vida.

É para ir além dessas projeções e mostrar que Macabéa, de fato, vista por todos os lados, é vazia, sem vida, sem autoconsciência, alheia até mesmo às forças fisiológicas mais simples, como a fome ou o orgulho (aceita humilhações sem qualquer comoção), que a autora patina grande parte do pequeno livro.

Convencido o leitor de que tal pessoa, menos que humana, possa existir, é possível e fácil demonstrar a tese de que basta uma mínima fagulha de esperança para despertar seu ímpeto pela vida. De forma brilhante, Clarice deixa a cargo de uma cartomante previamente desnudada de qualquer credibilidade a missão de suscitar uma expectativa na cabeça de Macabéa, de fazê-la projetar um futuro, de esperar algo melhor. Não importa a legitimidade da fonte, o pavio foi acendido. Graças às palavras da cartomante, pela primeira vez na vida, Macabéa luta para continuar vivendo, após o acidente.

A tese, assim, está demonstrada, confirmando inclusive o que já fora anunciado quando exposta toda a maldade de Olímpico, porquanto, a despeito de suas inclinações, foi reconhecido mais humano que Macabéa por possuir ambições.

Agora, creio ser também possível compreender outros detalhes importantes do livro. As especulações em torno da primazia do Ser das primeiras páginas, bem como a pergunta socrática “quem sou eu?” referidas diversas vezes ao longo da obra, são ao final confrontadas (talvez apenas complementadas) com a tese da filosofia existencialista (muito influente na época da autora, e ainda hoje) de que, descendo aos “fatos”, se descobre que o essencial do ser humano é projetar, é viver para o futuro, cabendo-lhe construir seu próprio ser.

Quem diria: A hora da estrela é um brevíssimo tratado de metafísica da esperança em forma de novela – e o renascimento do narrador (uma verdadeira catarse pela autocompreensão obtida com Macabéa) é a lição final de Clarice Lispector sobre a função da literatura.

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Detalhes do autor

Leandro Mello Ferreira

Capixaba, bacharel em direito, exerce o cargo de Procurador do Estado do Espírito Santo desde 2007. Aluno do Curso Online de Filosofia do professor Olavo de Carvalho. Organizou, com amigos, o Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI) em 2017 (“A filosofia de Olavo de Carvalho – o resgate da inteligência”) e 2018 (“Mário Ferreira dos Santos e a estrutura da realidade”).