A morte de Rolando Boldrin

18, nov, 2022 | Artigos | 0 Comentários

Por Victor Bruno

 

A morte de Rolando Boldrin representa um acontecimento decisivo para o Brasil. Não só porque morreu uma personagem cultural importante, mas porque representa uma passagem decisiva do Brasil para a modernidade desde a perspectiva cultural.
 
Até Rolando Boldrin, um certo tipo de cultura nacional tinha alguma, ainda que limitada, representação popular na mídia televisiva. O programa SR. BRASIL, na TV Cultura, era muito mais que um «ato de resistência simbólica», como seria qualquer outro programinha mal feito, mal filmado e mal produzido por um coletivo adolescente qualquer. Era também uma forma de expressão legítima e legitimada dum certo tipo de cultura popular, rural, caipira, do qual certamente era o último representante reconhecível.
 
Sendo paulista e voltado para paulistas, o SR. BRASIL era também o último tipo de expressão da cultura original do estado (e da cidade) de São Paulo na TV. Não podemos esquecer do que São Paulo realmente era até os anos 1950: «a capital da solidão». «De todos os paradoxos de São Paulo, — fala Roberto Pompeu de Toledo — um dos maiores é o que oferece o cotejo de seu presente com seu passado. Se há um lugar de que se possa dizer que já nasceu distante, esse lugar é São Paulo. Quando surgiu, era a primeira cidade, ou melhor, vila, ou melhor, vilarejo, brasileiro do interior, fora de mão e livre do alcance dos navios da metrópole. Por mais de uma ocasião esteve ameaçada de penosos retrocessos, se não de extinção, por motivo do abandono dos moradores, da precariedade de recursos e do que por vezes pareceu uma irremediável falta de futuro.»
 
É essa São Paulo pobre, São Paulo-cidade caipira misturada com São Paulo estado caipira, que era representada pelo som essencialmente provinciano de Rolando Boldrin e seus colaboradores. Antes dele, havia apenas uma outra representante dessa São Paulo quase que efetivamente esquecida por paulistas e paulistanos (e praticamente inédita para o restante dos brasileiros). Era Inezita Barroso, na mesma TV Cultura, com o VIOLA, MINHA VIOLA.
 
A perda de Boldrin é um baque inestimável. Talvez irrecuperável. É efetivamente um Brasil que não existe mais. Talvez as gerações futuras, quando São Paulo for uma metrópole que ocupe um estado inteiro, sequer saibam que um dia, onde é asfalto, foi terra, onde o paredão espanca, dedilhou-se uma viola de corda de arame. É uma cultura riquíssima que perde o último representante legítimo. Para os brasileiros, isso é triste, mas espero em Deus que outros estados não sigam esse exemplo. Todas as regiões do Brasil têm um dever sagrado para com seu povo e sua cultura.
 
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Detalhes do autor

Victor Bruno

Victor Bruno é autor da newsletter Cartas da Tradição, do livro A Imagem Estilhaçada: Breve Ensaio sobre Realismo, Nominalismo, e Filosofia (2020) e de diversos artigos para revistas, jornais e periódicos acadêmicos dentro e fora do Brasil. Seu segundo livro, René Guénon Revelado: Vida e Pensamento de um Enigma do Século XX, sairá em 2023 pela Danúbio.