À Beira do Danúbio

2, maio, 2022 | Artigos | 0 Comentários

Este texto é o início do livro “À Beira do Danúbio”, lançamento de abril de 2022 da Ed. Danúbio.  

Por Vitor Vicente

Quando aterrei no aeroporto de Baku, às tantas da madrugada, vindo de Budapeste, deparei com muita gente à espera de muita gente no terminal de desembarque. Famílias à espera dos seus e pseudo-taxistas à espera para fazer das suas. Transportes públicos para o centro da cidade, não parecia havê-los.

Longe da confusão da área de desembarques, havia — estava aberto — um balcão de informações. Além de mim, passageiro entre o solitário e o perdido, encontravam-se dois outros sujeitos, com a mesma pergunta na língua. Unidos pela ausência de direção, lançamos em uníssono a questão à rapariga do balcão, fazendo-a sair do sono e regressar ao seu ofício no mesmo segundo.

Confirmou-se: àquelas horas, não havia transporte para o centro da cidade, tirando os taxistas que não o eram. Nem eu, nem os outros dois sujeitos estávamos muito agradados com a ideia de apanhar um pseudo-táxi. Contudo, à falta doutra opção, depressa decidimos, sem grandes concílios ou debates, que era mais sensato partilhar a dita aventura.

Os dois sujeitos eram húngaros. Se bem me lembro, foram os primeiros húngaros que conheci. Por essa altura, conheci outro, que passou a ser o terceiro. Trabalhávamos na mesma empresa, mas só me foi apresentado à hora do almoço, quando nos aglomerávamos junto da mesa de matraquilhos. A competição era séria, organizavam-se torneios. Num deles, fui derrotado na final por esse húngaro e o seu parceiro, não sei bem quem, tudo o que me ficou foi a ausência de palavras e expressões do magyar, enquanto marcava golos atrás de golos e sem transparecer emoções, vendendo-me a ideia de que aqueles tipos eram tão entediantes quanto os nórdicos.

Estes dois, que conhecera em Baku, apresentaram-se bastante diferentes. Falamos o tempo todo, desde que partimos do aeroporto até chegarmos ao que, segundo o taxista que não o era, se tratava do centro da cidade. Um deles falava Inglês fluente e tinha um cartão de milhas aéreas coletadas em viagens de trabalho, o que me levou a tomá-lo como um húngaro a dar para o nobre e privilegiado, pois jamais imaginara que Budapeste tivesse o nível de inglês mais alto do Centro-Leste da Europa.

Falamos com aquela desenvoltura de quem suspeita estar a inaugurar uma amizade. Até nos atrevemos a agendar um encontro num dos dias seguintes. E o mais incrível é que nos encontrámos.

Com um deles, o que chamarei de casta alta, estabelecera o que me parecera sólida amizade. Entretanto, e porque este capítulo é escrito em diferido, a amizade foi desfeita, num belo dia de feriado nacional, em que — coincidência? — cometi o desplante de postar, no Facebook, uma foto de Viktor Orban, a erguer a bandeira húngara.

O sujeito tinha estado em Israel e parecia meio sionista, coisa incomum em terras de Herzl. Chamava-se László, nome frequente entre húngaros, cujo equivalente em português é Lourenço. Mantivemos contato através do Facebook e chegamos a pensar viajar juntos. Nunca se efetivou. Talvez fosse pedir muito ao hipócrita mundo humano.

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Detalhes do autor

Autor Aldo Maria Valli

Vitor Vicente

Vitor Vicente (1983), nasceu em Portugal e desde 2006 tem vivido entre Espanha, Irlanda, Polônia e Hungria, residindo atualmente em Cork. Publicou livros de vários géneros literários, sendo o tema da viagem transversal a toda a sua obra.

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